Perdi tempo demais tentando ser
quem eu não era. Ao me descobrir mascarada, senti o chão tremer sob meus pés.
Quem sou eu afinal?
Em meio a tornados e furacões, encontrei
um lugar de descanso, e pensei que finalmente minhas privações seriam supridas
permanentemente. Descanso, refrigério, alívio. O doce som de uma lira, acalentando uma história que poderia ter sido linda. E foi, de fato, linda.
Nos embalos de poesias, em
despretensiosos encontros com almas humanas, ao som de trilhas que ficariam
tatuadas na alma e na mente, a vida se tornou mais florida. Tudo ganhou novo
significado, todas as cores se tornaram mais vivas. O sol, o vento, a chuva, a
beleza de tudo o que é vida explodiu diante de mim, numa intensa ejaculação de
sons, cores e sabores.
E o mais incrível de tudo era
poder ser unicamente quem nasci pra ser. Sem máscaras e sem disfarces, apenas
eu, com todas as ambiguidades e idiossincrasias próprias a qualquer ser humano.
Segredos reverentemente partilhados, lágrimas cuidadosamente enxugadas, silêncios
que tudo diziam, risos desobrigados, elementos de uma intensa e breve caminhada
lado a lado
É fantástica a possibilidade de,
nos encontros com almas humanas, que se dispõe a serem tão somente almas
humanas, encontrarmos um manancial de graça. Este ingrediente (ingrediente?)
essencial do evangelho não sobrevive de elementos meramente abstratos, mas se
manifesta na vida através da concretude e materialidade de atos humanos (salve Caio Fábio).
Na humanidade Deus manifesta sua
graça. Nos abraços, nos afagos, nos pequenos gestos que demonstram amor, o
Criador nos envolve com o manto de sua bondade. Nas palavras de consolo ao
coração ferido, no colo oferecido gratuitamente, nas mãos que ajudam, nos
braços que aquecem, Deus trabalha em e para o ser humano.
Oração nenhuma substitui um
abraço. Na solidão, nenhum decreto substitui o sussurro que diz: “eu estou
aqui, meu irmão”, já dizia o homem de Deus.
A vida porém é feita de elementos
efêmeros, que se transformam ao sabor do acaso, ou pela força da circunstâncias. Água pode se transformar em
vinho, suor pode se tornar em sangue, e o concreto pode se esvair no nada.
De repente, sem nenhum aviso prévio,
o som da lira cessou. O silêncio agonizante, trilha quase funesta, envolveu tudo com seu manto
espesso. Os espasmos desse orgasmo de vida deixaram de existir, não com a suavidade de quem se sabe amado, mas com a violência brusca de quem sente medo de quem se acreditou amado.
Num instante, todas as privações,
cridas como superadas, irromperam novamente. As cores se desbotaram, os pássaros
silenciaram, o sol e o vento se tornaram brandos, quase indiferentes. Projetos foram
arquivados, detalhes foram escondidos para não serem lembrados. Trilhas,
poesias, lugares, tudo recebeu a letra escarlate da renúncia e da evasão.
Mas, que proveito há em se tirar
do alcance dos olhos algo que está latente na alma? Como afastar da vista
aquilo que não se consegue apagar da mente? Talvez seja melhor deixar o tempo
cuidar de tudo, não por que esta seja a opção mais plausível, mas porque talvez
esta seja a única opção.
Às vezes, a caixa das lembranças se impõe diante de mim. Quase sempre me faz chorar um choro que nunca imaginei chorar.
A lira silenciou, e no prelo não havia
outra música. Ainda assim, agradeço a vida, que um dia me permitiu ouvir o
seu doce som.
Nele, que coloca em nosso caminho as pessoas certas nos momentos certo.