Do
alto da Cruz onde estava pendurado, Jesus declarou, em oração: "Pai
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".
Naquele
momento, Cristo não apenas perdoava, mas clamava ao Pai que também concedesse o
seu perdão, pois aquelas pessoas, de fato, não sabiam o que estavam fazendo.
Cristo
não estava usando um eufemismo nem uma metáfora para atenuar a culpa de seus
algozes.
Ele clamou por perdão para os soldados romanos, que
eram apenas marionetes daquele sistema corrupto. Ele pediu que Herodes e
Pilatos fossem perdoados de sua covardia, condenando aquele que sabiam que ser
inocente. Ele perdoou e pediu perdão para os religiosos, membros do sinédrio
que foram os grandes responsáveis por sua prisão e condenação. Ele perdoou e
pediu ao Pai que perdoasse - pasmem, Judas Iscariotes seu traidor, porque ele
também não sabia o que estava fazendo, visto ter sido enredado pela sua própria
cobiça, escravizado pela ganância.
João, o apóstolo, escreveu que, embora toda maldade
seja pecado existem pecados que não levam à morte. Assim, se um irmão comete um
erro que não seja para morte, devemos clamar ao pai que o perdoe, e dessa forma
nos tornamos parceiros de Cristo, perdoando a tudo e a todos.
Eu não sei quais são os atos que levam à morte, mas
sei que se quero ser discípulo do Nazareno preciso, como condição sine qua non, perdoar! Não existem
instâncias superiores às quais recorrer nem cláusulas de exceção. Quem se sabe
perdoado, perdoa. O Evangelho é simples assim.
Condenado
como um criminoso qualquer, Jesus de Nazaré foi executado como mais um, entre
tantos criminosos que todos os dias eram condenados a morte por crucificação.
Assim, não é nada estranho que com ele mais dois homens tivessem recebido igual
sentença.
Enquanto
agonizava, Jesus ouvia da multidão palavras de escárnio e zombaria. Na mente
religiosa daquele povo não cabia que Deus pudesse se deixar matar. A religião
baseada na lógica de causa e efeito pensa que se
aquele crucificado é de fato quem diz ser - o Filho de Deus, logo deveria
salvar a si mesmo.
Em meio a tantos brados de achincalhamento, um dos
homens crucificados ao lado de Jesus reconhece naquele ser desfigurado pelos
açoites romanos, o próprio Cristo. Dimas, como a tradição histórica passou a
chamar aquele ladrão, sabia que sua própria morte estava acontecendo com
justiça, mas o homem naquela cruz do meio não havia cometido crime algum.
"Quando chegar ao seu reino, lembre-se de
mim" foi a única coisa que Dimas ousou pedir.
"Ainda hoje você vai estar comigo no
paraíso". Não poderia haver resposta mais auspiciosa.
Aquele que se dispõe a seguir os passos de Jesus
Cristo precisa aprender a reconhecer Deus onde não parece haver Deus, como no
rosto ensanguentado e no corpo moído de um condenado a morte de cruz.
Precisa também reconhecer que Ele é Deus, mesmo que
eu mesmo esteja pendurado na cruz. No evangelho não cabem as lógicas da
religião.
Principalmente, o seguidor do Messias precisa
crescer na consciência de que na morte de Jesus, ele foi alcançado por uma
graça indizível, fruto de uma decisão soberana e unilateral de Deus de salvar
aquele que havia se perdido.
Enquanto aprendo a caminhar como um discípulo do
Carpinteiro de Nazaré, entendo que não preciso ter o poder miraculoso de
Moisés, a sabedoria de Salomão ou a ousadia de João, o batista. A mim, basta
receber o mesmo que Dimas recebeu
A
história da redenção humana não tem como protagonista um homem que se
divinizou, e assim alcançou a estatura elevada de um deus. A história da
redenção fala do Deus soberano que se humanizou.
O
Verbo de Deus, sendo eterno, imutável, todo poderoso, onisciente e com tantas
características impossíveis de serem descritas, se humanizou, se limitou, se
fez semelhante a sua criação, a fim de ensinar o homem a ser de fato humano.
Jesus
viveu da forma mais humana possível, e em sua
agonia de morte não teve nenhum problema em afirmar: "Tenho sede".
Deus, em Jesus, teve sede, assim como já havia experimentado a fome, o sono, o
cansaço, a tristeza e a frustração. E nenhum sentimento ou sensação foi
maquiado por Jesus sob o pretexto de que ser uma divindade significa ser impassível
e inalterável.
Jesus teve sede, mas nem por isso bebeu da mistura
de fel e vinagre que lhe foi oferecida. Teve sede, nas não aceitou algo que não
fosse água. Também não aceitou que sua dor física fosse abrandada por qualquer
anestésico (é provável que fel misturado a vinagre tivesse efeito analgésico).
Tudo o que precisou suportar, Jesus suportou de cara limpa, de frente com a
crueza da vida e dos fatos como eles de fato são.
Se dispor a seguir as pegadas do Galileu significa
assumir nossa humanidade da forma mais plena possível, admitir dores, derramar
lágrimas, sentir a fragilidade dos nossos recursos e vez por outra desejar se
recolher no abraço de alguém.
O discípulo de Jesus deve aprender que estar com
sede não deve leva-lo a aceitar qualquer coisa que não seja água, verdade e
transparência.
O exemplo do Cristo, Filho do Deus Vivo, nos diz que
a vida e suas intempéries devem ser enfrentadas com sobriedade e convicção, sem
aditivos que mascarem a vida do jeito que ela se apresenta. A dor só pode ser
vencida quando enfrentada.
Maria,
esposa de José, da aldeia de Nazaré, tinha muitos filhos. Dois deles - Tiago e
Judas, escreveram cartas que mais tarde compuseram o cânon do Novo Testamento.
Entretanto, no momento mais doloroso de sua vida, nenhum dos filhos gerados por
seu ventre estiveram ao seu lado.
Não
deve haver dor maior do que a de perder um filho nas circunstâncias em que
Maria perdeu. Ela havia carregado aquele rapaz em seu ventre, e o educara como
qualquer mãe judia do seu tempo faria. Viu ele se
tornar um homem bom, que andou por todo lado fazendo o bem. Ela sabia que ele
não havia sido concebido por ações humanas, mas por ato soberano e miraculoso
do Deus de Israel. Naquele momento Maria viu seu primogênito sendo submetido a
um julgamento injusto, sendo torturado com toda crueldade e sendo obrigado a
carregar uma cruz para, ao final, ser nela pregado. Maria sofreu o que nenhuma
mãe deveria sofrer, e sofreu sem que nenhum dos seus outros filhos estivessem
ao lado dela.
Do alto da cruz, Jesus enxergou sua mãe, viu seu
sofrimento e se compadeceu dela. Aliás, exatamente por se compadecer da raça
humana desde a eternidade é que Jesus estava naquela cruz. Ao lado de Maria,
Jesus vê joão, seu discípulo amado, amigo mais íntimo, que havia ficado por ali
enquanto todos os outros fugiram em debandada. Maria precisava de alguém que
cuidasse dela, João tinha carência de um colo maternal. Então Jesus declarou:
"Mãe, olha do seu lado. Aí está o seu filho! João, está vendo minha mãe
Maria? Agora ela é a tua mãe!"
O convite do discipulado de Jesus de Nazaré passa
pela compaixão e pela ação em favor da dor do outro. Quem se dispõe a seguir as
pegadas do Carpinteiro deve entender que passar da morte para vida significa
nunca mais conseguir ver alguém sofrendo sem que nosso espírito se agite com
profunda compaixão.
O discípulo de Cristo deve aprender que no
evangelho, o conceito de família traspassa qualquer relação sanguínea ou
qualquer paramento legal. Pra Jesus, família se compõe de pessoas que se amam,
se preocupam umas com as outras e por isso se cuidam. Nenhum laço sanguíneo é
maior que os laços de amor gerados no derramar do sangue do Cordeiro
No auge de suas
angústias de morte, Jesus bradou, talvez juntando o pouco de fôlego que seus
pulmões ainda conseguiam reter: "Deus meu, Deus meu, por que me
abandonastes?". A multidão que o escutou, viu apenas mais uma razão para
zombar dele.
Ao longo dos
séculos, muitas questões se fazem a respeito dessa declaração. Deus havia mesmo
abandonado Jesus? O Pai teria virado as costas para não contemplar os
sofrimentos do Filho? O Cordeiro de Deus estava cheio das iniquidades dos homens, por isso
Deus se distanciara dele? Essas especulações são apenas o que são:
especulações.
No brado de Cristo encontramos o Filho do Homem
rasgando o coração diante do Pai. O sentimento é de desamparo, de abandono, e
não há nenhum temor em falar sobre isso com Deus, visto ser Ele o Aba, o
Paizinho que se compadece de cada um dos seus filhinhos, sem lhes lançar em
rosto o próprio sofrimento.
Jesus afirmou que Deus continuava sendo seu Deus,
mesmo quando o quadro foi de absoluta perplexidade. É o som da adoração
dolorida, das ações de graças amargas, que existem e persistem na mais terrível
dor. É a adoração de Abraão, subindo o monte Moriá, com o coração pesado e
mergulhado na mais pura angústia, mas mesmo assim em adoração.
Enquanto caminho após o Galileu, aprendo que em
muitos momentos a vida vai se apresentar como absurdo, com dores e
perplexidades extremas, ao ponto de que o sentimento mais forte seja desamparo.
Eu não tenho medo de falar sobre isso com Deus, não temo que Ele fique
melindrado pela minha pequena fé. Desamparo é desamparo e Ele sabe que sou pó!
Mais que isso, quando a vida se mostrar um vale de
sombra e de morte, aprenderei a não duvidar de Ele é meu Deus, e as dores não
colocam essa verdade em cheque, pois é no vale que aprenderei que Ele estará
sempre comigo, mesmo que meu sentimento mais forte seja o de abandono.
Há
quem considere Jesus de Nazaré alguém que estava indo muito bem em seu projeto
de vida, até que a fatalidade da cruz o alcançou e frustrou seus planos. Alguns
o consideram um mártir, que foi até as ultimas consequências pela causa em que
acreditava. Um mártir, que poderia ter sido enforcado, esquartejado,
envenenado, mas acabou sendo crucificado.
O
que o Evangelho deixa claro é que Ele veio para aquela hora. O Calvário foi seu
alvo desde sempre, e sua morte não foi um
imprevisto, nem motivo de comemoração no inferno. Foi na verdade a grande
derrota de todas as potestades malignas.
O Verbo de Deus se fez carne, para que em carne se
tornasse o cordeiro de Deus, imolado antes da fundação do mundo, sacrificado
pelo pecados de todos os homens. Não foi um erro de percurso, nem uma
fatalidade, tampouco poderia ter sido por outro meio. O Cristo veio para se
entregar a morte, e morte sacrificial, pendurado num madeiro, se fazendo
maldição no lugar da raça humana.
Caminhar sob as pegadas do Carpinteiro de Nazaré
significa viver sob a leveza de quem se sabe perdoado desde sempre e para
sempre. Ando convicto de que toda acusação que pesava contra mim ficou cravada
na cruz do calvário. Portanto, não aceito acusações de ninguém: nem do Diabo,
nem do meu passado, nem qualquer um que queira me afastar dessa consciência
gerada na graça de Deus.
Mais que isso, caminho vendo todos os meus
semelhantes como iguais, nivelados pelo pecado, e cobertos pelo sangue da cruz
de Cristo, que nos conduz irmanados nesta convicção: está consumado.
Talvez
não haja medo mais primordial no ser humano do que o medo da morte. Mesmo os
que dizem não terem medo de morrer, fazem tudo para adiar esse momento, ou
flertam com o trágico, como se isso pudesse anular sua força destruidora.
O
Messias veio ao mundo se doar, e se doando viveu seus trinta e poucos anos,
para ao final completar sua doação, entregando a própria vida em resgate do ser
humano. Do Pai viera, e para o Pai voltaria, por isso
não havia o menor resquício de medo da morte em sua alma. Crendo que qualquer
que fosse a circunstância, seu destino o levaria direto aos braços de Deus, fez
a ultima declaração do Calvário: "Pai, em tuas mãos entrego meu
espírito!"
Parece uma declaração de um moribundo, mas na
verdade é a fala de alguém que se sabe cidadão da glória eterna, por isso não
teme entregar tudo nas mãos Deus, todos os dias, enquanto caminha pelo chão da
existência.
Jesus entregou seu espírito nas mãos do Pais todos
os dias em que viveu. Em cada tentação que vencia, em cada bem que fazia, sua
vida foi de entrega, até o momento em que sua entrega tomou plenitude. E tendo
se doado completamente, expirou.
Ser discípulo do Cristo de Deus significa existir
tendo a vida entregue nas mão de Deus, não apenas como uma declaração
imediatamente anterior a morte, mas se entregar todos dos dias, confiando que a
morte será apenas o meio pelo qual serei acolhido pelos braços do Pai, por toda
eternidade.
O discípulo no Nazareno caminha livre de quaisquer
fobias de morte, pois se sabe herdeiro de glória indizível, preparada por Deus
antes que houvesse dia.
Nele, em quem palavras nunca são apenas palavras!