"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O ENCONTRO


Ele queria ver Jesus.

Nada mais natural. Ele havia ouvido falar muita coisa sobre aquele nazareno: curava doença simples, como febre, e problemas complexos, como paralisia e cegueira; tinha poder sobre as forças da natureza; trazia mortos de volta à vida; expulsava espíritos malignos. Mas sua expectativa não tinha a ver com os milagres óbvios e evidentes.

- Esse Jesus fala coisas que tocam a alma. Suas palavras geram vida. - um conhecido lhe dissera.

Ele não precisava de uma cura física, mas de uma solução para aquele vazio inexplicável que persistia por anos. Era um homem rico, tinha tudo o que era possível comprar, mas sua densidade interior era inversamente proporcional as suas reservas financeiras. De noite, o sono lhe fugia, e sua mente se enchia de preocupações e angústias. Temia por sua vida, por sua família, por seu futuro. Não sabia do que tinha medo exatamente, mas sentia medo constantemente. E sentia-se completamente sozinho.

- Isso é falta de Deus. - Ouviu isso algumas vezes, e decidiu procurar Deus no lugar onde diziam que Ele habitava.

Entrou no templo meio constrangido, não querendo ser visto. Era um menino quando estivera ali pela última vez, nem se lembrava direito. Algumas pessoas o olharam com estranhamento, ele era muito conhecido, principalmente por conta do seu trabalho.

"Explorador" era a pecha que recebia. Mas ele só fazia seu trabalho, pelo menos era o que dizia para si mesmo, como forma de se justificar e apaziguar sua consciência. No fundo sabia que oprimia os pobres, e fazia conluios desonestos com os ricos.

O ambiente religioso o angustiou ainda mais, o fez sentir inadequado e excluído. Queria sair logo dali e se afastar daquele Deus irado e de seus seguidores tão perfeitos.

Um dia, num acaso, ouviu falar do tal Jesus, de Nazaré. A princípio não deu atenção, mas os comentário se multiplicavam a respeito daquela pessoa tão incrível. De repente, começou a alimentar a esperança de que ele poderia lhe dar a solução que buscava. Se o Nazareno era de fato um profeta de Deus, poderia lhe dar uma resposta, algo que pudesse dar sentido àquele vazio gigantesco que o preenchia. Sim, seu ser era completamente preenchido por solidão e tédio. Ele era cheio de vazio.

Numa tarde, quando caminhava para seu trabalho, viu uma movimentação incomum.

- O que está acontecendo?

- Jesus de Nazaré está chegando na cidade.

Sentiu seu coração palpitar e de forma quase automática seguiu o fluxo da movimentação. Dobrou uma esquina e viu uma multidão que vinha subindo a rua principal, na sua direção. Se aproximou e tentou enxergar o tal Nazareno. Não era possível. Tentou entrar no meio da multidão, mas as pessoas formavam um verdadeiro escudo humano em torno de Jesus, que não podia nem ser visto nem ser reconhecido.

Frustrado, se afastou do ajuntamento.

- Os seguidores de Jesus não me deixam chegar perto dele!

Olhou a frente e percebeu uma árvore, que poderia servir de mirante. Um homem crescido, e principalmente alguém tão conhecido quanto ele, escalando os galhos de uma árvore, feito um menino, seria vergonhoso!

A multidão se aproximava, e ele precisava decidir rápido. Sem pensar muito e sem olhar para os lado, apressou o passo e caminhou até a árvore. Em seguida, começou a subir em seu tronco. Havia espinhos, mas ele ignorou e continuou subindo, até conseguir ver bem a multidão, que já estava passando. Quem seria o tal Jesus? Não havia ninguém diferente, ninguém com aparência de profeta.

Enquanto seu olhar buscava alguém que nem sequer conhecia, ouviu uma voz desconhecida o chamar pelo nome. Tomou um susto. De onde vinha aquela voz?

- Aqui embaixo. 

Seus olhos se cruzaram com os de um homem parado ao lado da árvore. Um homem comum, com uma roupa comum, com pés empoeirados pela caminhada, e com um brilho incomum no olhar.

- Zaqueu, desce. Hoje eu serei seu hóspede.


Nele, que nos encontrou bem antes que o tivéssemos procurado!