Um livro com 365 páginas em branco, ou 365 novas oportunidades de fazer diferente. É assim que muito definem o início de um novo ano.
Podemos ser mais pragmáticos e achar que dia primeiro de janeiro é apenas o dia depois de 31 de dezembro, e nada muda realmente.
Mas quase tudo se constrói no nosso olhar, e nossa forma de ver o mundo e a vida determina muito do que faremos ou seremos.
Por isso, gosto de pensar em como olhar para o ano que se desfralda diante de nós, e dizer que ele é nossa Terra Prometida. Nossa Canaã se chama 2019.
Israel saiu do Egito e foi caminhando pelo deserto do Sinai. Sobre eles, a proteção do Eterno e suas promessas aos patriarcas. Presenciaram a maior abundância de sinais miraculosos de que se tem notícia. Mas quando chegaram à Terra Prometida foram tomados por tão imenso mendo que cogitaram voltar ao Egito. Canaã precisava ser conquistada! E o temor os fez perambular por 40 anos pelo Sinai.
Tudo o que 2019 nos reserva também precisa ser conquistado. Assim como a Terra Prometida, não é um banquete pronto no qual basta nos assentarmos e desfrutarmos. A terra é habitada por gigantes, é necessário vencê-los.
Josué empunhou a espada e derramou muito sangue, antes que a nação pudesse tomar posse daquela terra.
O novo ano também terá seus gigantes, e cada um identifique os seus: medos, inseguranças, problemas realmente complexos, desafios cada vez maiores, crises que sempre ficam à espreita.
Mas tudo está no nosso olhar, na forma como vemos a vida. Alguns vêem gigantes invencíveis e enxergam a sim mesmos como gafanhotos insignificantes.
Outros também vêem os gigantes e também aceitam sua pequenez, mas tomam uma decisão: "Subamos, conquistemos a terra, afinal Deus está conosco!"
Em 2019 não faltarão batalhas a serem enfrentadas, lágrimas derramadas e dores agudas. Mas que nunca nos falte coragem para continuarmos a conquistar nossa Terra Prometida.
Nele, que nos deu sua promessa.
METAMORFOSEANDO SUA MENTE
Coragem para repensar a fé e a espiritualidade
"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
O ENCONTRO
Ele queria ver Jesus.
Nada mais natural. Ele havia ouvido falar muita coisa sobre aquele nazareno: curava doença simples, como febre, e problemas complexos, como paralisia e cegueira; tinha poder sobre as forças da natureza; trazia mortos de volta à vida; expulsava espíritos malignos. Mas sua expectativa não tinha a ver com os milagres óbvios e evidentes.
- Esse Jesus fala coisas que tocam a alma. Suas palavras geram vida. - um conhecido lhe dissera.
Ele não precisava de uma cura física, mas de uma solução para aquele vazio inexplicável que persistia por anos. Era um homem rico, tinha tudo o que era possível comprar, mas sua densidade interior era inversamente proporcional as suas reservas financeiras. De noite, o sono lhe fugia, e sua mente se enchia de preocupações e angústias. Temia por sua vida, por sua família, por seu futuro. Não sabia do que tinha medo exatamente, mas sentia medo constantemente. E sentia-se completamente sozinho.
- Isso é falta de Deus. - Ouviu isso algumas vezes, e decidiu procurar Deus no lugar onde diziam que Ele habitava.
Entrou no templo meio constrangido, não querendo ser visto. Era um menino quando estivera ali pela última vez, nem se lembrava direito. Algumas pessoas o olharam com estranhamento, ele era muito conhecido, principalmente por conta do seu trabalho.
"Explorador" era a pecha que recebia. Mas ele só fazia seu trabalho, pelo menos era o que dizia para si mesmo, como forma de se justificar e apaziguar sua consciência. No fundo sabia que oprimia os pobres, e fazia conluios desonestos com os ricos.
O ambiente religioso o angustiou ainda mais, o fez sentir inadequado e excluído. Queria sair logo dali e se afastar daquele Deus irado e de seus seguidores tão perfeitos.
Um dia, num acaso, ouviu falar do tal Jesus, de Nazaré. A princípio não deu atenção, mas os comentário se multiplicavam a respeito daquela pessoa tão incrível. De repente, começou a alimentar a esperança de que ele poderia lhe dar a solução que buscava. Se o Nazareno era de fato um profeta de Deus, poderia lhe dar uma resposta, algo que pudesse dar sentido àquele vazio gigantesco que o preenchia. Sim, seu ser era completamente preenchido por solidão e tédio. Ele era cheio de vazio.
Numa tarde, quando caminhava para seu trabalho, viu uma movimentação incomum.
- O que está acontecendo?
- Jesus de Nazaré está chegando na cidade.
Sentiu seu coração palpitar e de forma quase automática seguiu o fluxo da movimentação. Dobrou uma esquina e viu uma multidão que vinha subindo a rua principal, na sua direção. Se aproximou e tentou enxergar o tal Nazareno. Não era possível. Tentou entrar no meio da multidão, mas as pessoas formavam um verdadeiro escudo humano em torno de Jesus, que não podia nem ser visto nem ser reconhecido.
Frustrado, se afastou do ajuntamento.
- Os seguidores de Jesus não me deixam chegar perto dele!
- Os seguidores de Jesus não me deixam chegar perto dele!
Olhou a frente e percebeu uma árvore, que poderia servir de mirante. Um homem crescido, e principalmente alguém tão conhecido quanto ele, escalando os galhos de uma árvore, feito um menino, seria vergonhoso!
A multidão se aproximava, e ele precisava decidir rápido. Sem pensar muito e sem olhar para os lado, apressou o passo e caminhou até a árvore. Em seguida, começou a subir em seu tronco. Havia espinhos, mas ele ignorou e continuou subindo, até conseguir ver bem a multidão, que já estava passando. Quem seria o tal Jesus? Não havia ninguém diferente, ninguém com aparência de profeta.
Enquanto seu olhar buscava alguém que nem sequer conhecia, ouviu uma voz desconhecida o chamar pelo nome. Tomou um susto. De onde vinha aquela voz?
- Aqui embaixo.
Seus olhos se cruzaram com os de um homem parado ao lado da árvore. Um homem comum, com uma roupa comum, com pés empoeirados pela caminhada, e com um brilho incomum no olhar.
- Zaqueu, desce. Hoje eu serei seu hóspede.
Nele, que nos encontrou bem antes que o tivéssemos procurado!
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Nossos bichos interiores
Aquele era um típico bando de felinos: um macho alfa, alguns
machos beta, várias fêmeas e alguns filhotes, todos vivendo juntos e dividindo
as tarefas do dia a dia. Zuberi, o líder do bando, sabia que era sua a missão de
manter todos unidos, fazer com que cada um cumprisse sua função no grupo e
resguardar suas terras contra possíveis invasores. Enquanto isso, os betas
caçavam e assim alimentavam todo o bando.
Uki, um dos vassalos, costumava seguir Zuberi muito de
perto. Sabia que o líder era o mais forte e capacitado, e no seu íntimo sonhava
em ser como ele. Entretanto, o tempo foi passando, e as ambições de Uki o se
transformaram em ávida cobiça. Ele já não queria ser como Zuberi, queria ser o
próprio Zuberi. Uki passou a sonhar, dia após dia, em dar as ordens que Zuberi
dava, comer as caças antes de todos, como Zuberi fazia, cortejar todas as fêmeas
que quisesse, como Zuberi cortejava, e principalmente, Uki desejava não precisar
mais obedecer a ninguém, ser o senhor de sua vida e ser soberado sobre todo o
bando! Mas isso só poderia acontecer se Zuberi não existisse mais.
Entao Uki passou a viver com um pensamento fixo: precisava
matar Zuberi.
Mas o alfa era muito forte, mais do que todos do bando
juntos, além de extremamente sagaz. Seria impossível acabar com Zuberi.
A oportunidade da vida de Uki veio quando ele menos
esperava. Numa noite, um animal desavisado invadiu as terras de Zuberi. Era apenas
um antílope, que provavelmente havia se perdido do seu grupo. Zuberi sequer cogitou matá-lo, pois o banco estava
bem alimentado. Ele apenas espantou o bicho, sem notar que perto dali uma
manada de antílopes havia debandado. Foi um momento de distração, e quando
Zuberi deu por si, milhões de cascos de pesados animais que corriam em
disparada, o cercaram. Zuberi caiu e foi pisoteado várias vezes.
Quando finalmente conseguiu se desvencilhar da manada,
Zuberi estava muito ferido, sangrando abundantemente. Foi quando viu Uki se
aproximar e sentiu-se aliviado, afinal iria ser socorrido. Para supresa de
Zuberi, Uki apenas o olhou nos olhos e disse:
“Você não sabe mais caçar, não consegue mais defender seu
bando. Você não serve pra ser nosso alfa”.
Dito isso, Uki se lançou na jugular de Zuberi e só parou de
abocanhar quando teve certeza de que seu rival estava morto.
Uki sabia há algum tempo que seria impossível abater Zuberi
enquanto ele estivesse em pé, mas se ele fosse ferido, se tornaria uma presa
fácil!
Nele, que não nos rejeita quando estamos feridos!
sábado, 9 de janeiro de 2016
Marcha para Satanás
A marcha para Satanás acontece todos os dias, e o pior, é
feita em nome de Deus.
Sim, estão marchando para Satanás por todo o Brasil.
Nos templos em que se explora a fé simples, de gente
simples, marcham para Satanás.
Nas profecias falsas, proferidas em nome de Deus, marcham
para Satanás.
Nas pregações que sobrecarregam o povo com culpa e medo, marcham
para Satanás.
Nos ensinamentos que mantém o povo cativo, sob malditas maldições,
inventadas apenas para manipular e escravizar, marcham para Satanás.
Filhos do Diabo, homicidas mentirosos!
Mentem em nome de Deus, prometem o que Deus nunca prometeu e
profetizam em nome de Deus o que só o Diabo diria.
Declaram-se mestres, apóstolos, messias, mas são na verdade,
sacerdotes de Satanás.
Querem ser vistos pelos homens, se vestem de pano de saco
nos palcos, se prostram numa adoração que só comove aos incautos, se derramam
em lágrimas forjadas, ficam de quatro e imitam leões, constroem templos suntuosos,
propagam curas fajutas... São filhos do inferno.
Enquanto isso, vão promovendo a injustiça, a desigualdade e
a miséria. Mantém o povo descerebrado e amedrontado.
Negam a justiça, a misericórdia, a fidelidade, o direito dos
órfãos, das viúvas, dos refugiados, dos excluídos. Fecham as portas a todos os
rejeitados.
Estão cheios de podridão, de astucia, de torpe ganância, de adultério
e prostituição.
Tem as mãos manchadas com o sangue dos profetas autênticos,
e o sangue de todos que, ao serem enganados, se sentem traídos por Deus, estarão
sobres suas cabeças.
Filho do inferno! Marcham para Satanás todos os dias, nos púlpitos,
nos palcos, nos programas de televisão.
E agora, querem meter medo, por uma Marcha para Satanás um
pouco mais literal.
O Diabo tem o tamanho e o poder que damos e ele. E em nossa nação,
ele já tem muitos templos, muitos filhos e muitos adoradores. E o pior é que
tudo é feito em nome de Deus.
Nele, a quem eu rogo por misericórdia!
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Se é graça, por que me arrepender?
Tudo o que de Deus recebemos - e tudo de Deus recebemos, é fruto de sua graça!
Graça é a decisão unilateral, Daquele que é soberano sobre tudo e sobre todos, de alcançar com seu amor seres humanos caídos e incapazes de, por si mesmos, se achegarem a Deus.
Em Cristo, unicamente por seu sacrifício, temos salvação, redenção, perdão, santificação, regeneração, garantia de vida eterna, e toda sorte de bençãos.
Tudo o que precisava ser feito para que fossemos salvos, Cristo já fez na cruz. Tudo o que precisava ser feito para que nossos pecados fossem perdoados e nossas culpas fossem apagadas, já está feito. Porque o Cordeiro de Deus foi imolado estamos livres de acusações, maldições, culpas, e quaisquer outras dívidas que possam nos ser imputadas.
Tudo está feito, nada mais precisa ser acrescentado!
Então, por que ainda há necessidade de arrependimento?
A resposta pode ser encontrada na história de uma uma família, que vivia bem e feliz, até que um dos filhos decide abandonar o lar. Antes porém exige que o pai lhe dê a parte que lhe cabe dos seus bens, uma antecipação da herança. Mais que um desrespeito, aquilo era uma declaração de que, para o filho, o valor do pai estava atrelado aos bens que possuía.
Mesmo assim, o pai atende ao pedido do filho, que logo em seguida parte em busca de aventuras! O jovem passa a viver uma vida desregrada, repleta de farras, bebedeiras, orgias e amigos oportunistas. Logo o dinheiro se acaba, os amigos se vão e o rapaz precisa lutar pelo seu sustento. Sofrendo privações e humilhações, ele se lembra que tem um pai, alguém que proporciona vida farta até para os empregados. Decide então voltar.
"Meu pai não me acolherá como um filho, mas me aceitará como um empregado" - pensa ele.Para surpresa de todos, o pai o recebe de volta, não na condição de servo, mas como a um filho amado.
Gosto de pensar que durante todo o tempo em que o filho esteve fora, o pai o esperou de volta. Seu lugar à mesa permaneceu vazio e seu quarto foi mantido arrumado. O pai sempre manteve a disposição do filho todos os tesouros de sua graça e misericórdia, mas o filho só pôde desfrutar de tudo quando, arrependido, voltou ao convívio do pai.
A graça é um presente bem embrulhado. O arrependimento é o meio pelo qual rasgamos o pacote e usufruímos de tudo o que tem dentro dele.
E poder se arrepender também é fruto da graça!
Nele.
As sete palavras da Cruz
Do
alto da Cruz onde estava pendurado, Jesus declarou, em oração: "Pai
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".
Naquele
momento, Cristo não apenas perdoava, mas clamava ao Pai que também concedesse o
seu perdão, pois aquelas pessoas, de fato, não sabiam o que estavam fazendo.
Cristo
não estava usando um eufemismo nem uma metáfora para atenuar a culpa de seus
algozes.
Ele clamou por perdão para os soldados romanos, que
eram apenas marionetes daquele sistema corrupto. Ele pediu que Herodes e
Pilatos fossem perdoados de sua covardia, condenando aquele que sabiam que ser
inocente. Ele perdoou e pediu perdão para os religiosos, membros do sinédrio
que foram os grandes responsáveis por sua prisão e condenação. Ele perdoou e
pediu ao Pai que perdoasse - pasmem, Judas Iscariotes seu traidor, porque ele
também não sabia o que estava fazendo, visto ter sido enredado pela sua própria
cobiça, escravizado pela ganância.
João, o apóstolo, escreveu que, embora toda maldade
seja pecado existem pecados que não levam à morte. Assim, se um irmão comete um
erro que não seja para morte, devemos clamar ao pai que o perdoe, e dessa forma
nos tornamos parceiros de Cristo, perdoando a tudo e a todos.
Eu não sei quais são os atos que levam à morte, mas
sei que se quero ser discípulo do Nazareno preciso, como condição sine qua non, perdoar! Não existem
instâncias superiores às quais recorrer nem cláusulas de exceção. Quem se sabe
perdoado, perdoa. O Evangelho é simples assim.
Condenado
como um criminoso qualquer, Jesus de Nazaré foi executado como mais um, entre
tantos criminosos que todos os dias eram condenados a morte por crucificação.
Assim, não é nada estranho que com ele mais dois homens tivessem recebido igual
sentença.
Enquanto
agonizava, Jesus ouvia da multidão palavras de escárnio e zombaria. Na mente
religiosa daquele povo não cabia que Deus pudesse se deixar matar. A religião
baseada na lógica de causa e efeito pensa que se
aquele crucificado é de fato quem diz ser - o Filho de Deus, logo deveria
salvar a si mesmo.
Em meio a tantos brados de achincalhamento, um dos
homens crucificados ao lado de Jesus reconhece naquele ser desfigurado pelos
açoites romanos, o próprio Cristo. Dimas, como a tradição histórica passou a
chamar aquele ladrão, sabia que sua própria morte estava acontecendo com
justiça, mas o homem naquela cruz do meio não havia cometido crime algum.
"Quando chegar ao seu reino, lembre-se de
mim" foi a única coisa que Dimas ousou pedir.
"Ainda hoje você vai estar comigo no
paraíso". Não poderia haver resposta mais auspiciosa.
Aquele que se dispõe a seguir os passos de Jesus
Cristo precisa aprender a reconhecer Deus onde não parece haver Deus, como no
rosto ensanguentado e no corpo moído de um condenado a morte de cruz.
Precisa também reconhecer que Ele é Deus, mesmo que
eu mesmo esteja pendurado na cruz. No evangelho não cabem as lógicas da
religião.
Principalmente, o seguidor do Messias precisa
crescer na consciência de que na morte de Jesus, ele foi alcançado por uma
graça indizível, fruto de uma decisão soberana e unilateral de Deus de salvar
aquele que havia se perdido.
Enquanto aprendo a caminhar como um discípulo do
Carpinteiro de Nazaré, entendo que não preciso ter o poder miraculoso de
Moisés, a sabedoria de Salomão ou a ousadia de João, o batista. A mim, basta
receber o mesmo que Dimas recebeu
#sede
A
história da redenção humana não tem como protagonista um homem que se
divinizou, e assim alcançou a estatura elevada de um deus. A história da
redenção fala do Deus soberano que se humanizou.
O
Verbo de Deus, sendo eterno, imutável, todo poderoso, onisciente e com tantas
características impossíveis de serem descritas, se humanizou, se limitou, se
fez semelhante a sua criação, a fim de ensinar o homem a ser de fato humano.
Jesus
viveu da forma mais humana possível, e em sua
agonia de morte não teve nenhum problema em afirmar: "Tenho sede".
Deus, em Jesus, teve sede, assim como já havia experimentado a fome, o sono, o
cansaço, a tristeza e a frustração. E nenhum sentimento ou sensação foi
maquiado por Jesus sob o pretexto de que ser uma divindade significa ser impassível
e inalterável.
Jesus teve sede, mas nem por isso bebeu da mistura
de fel e vinagre que lhe foi oferecida. Teve sede, nas não aceitou algo que não
fosse água. Também não aceitou que sua dor física fosse abrandada por qualquer
anestésico (é provável que fel misturado a vinagre tivesse efeito analgésico).
Tudo o que precisou suportar, Jesus suportou de cara limpa, de frente com a
crueza da vida e dos fatos como eles de fato são.
Se dispor a seguir as pegadas do Galileu significa
assumir nossa humanidade da forma mais plena possível, admitir dores, derramar
lágrimas, sentir a fragilidade dos nossos recursos e vez por outra desejar se
recolher no abraço de alguém.
O discípulo de Jesus deve aprender que estar com
sede não deve leva-lo a aceitar qualquer coisa que não seja água, verdade e
transparência.
O exemplo do Cristo, Filho do Deus Vivo, nos diz que
a vida e suas intempéries devem ser enfrentadas com sobriedade e convicção, sem
aditivos que mascarem a vida do jeito que ela se apresenta. A dor só pode ser
vencida quando enfrentada.
Maria,
esposa de José, da aldeia de Nazaré, tinha muitos filhos. Dois deles - Tiago e
Judas, escreveram cartas que mais tarde compuseram o cânon do Novo Testamento.
Entretanto, no momento mais doloroso de sua vida, nenhum dos filhos gerados por
seu ventre estiveram ao seu lado.
Não
deve haver dor maior do que a de perder um filho nas circunstâncias em que
Maria perdeu. Ela havia carregado aquele rapaz em seu ventre, e o educara como
qualquer mãe judia do seu tempo faria. Viu ele se
tornar um homem bom, que andou por todo lado fazendo o bem. Ela sabia que ele
não havia sido concebido por ações humanas, mas por ato soberano e miraculoso
do Deus de Israel. Naquele momento Maria viu seu primogênito sendo submetido a
um julgamento injusto, sendo torturado com toda crueldade e sendo obrigado a
carregar uma cruz para, ao final, ser nela pregado. Maria sofreu o que nenhuma
mãe deveria sofrer, e sofreu sem que nenhum dos seus outros filhos estivessem
ao lado dela.
Do alto da cruz, Jesus enxergou sua mãe, viu seu
sofrimento e se compadeceu dela. Aliás, exatamente por se compadecer da raça
humana desde a eternidade é que Jesus estava naquela cruz. Ao lado de Maria,
Jesus vê joão, seu discípulo amado, amigo mais íntimo, que havia ficado por ali
enquanto todos os outros fugiram em debandada. Maria precisava de alguém que
cuidasse dela, João tinha carência de um colo maternal. Então Jesus declarou:
"Mãe, olha do seu lado. Aí está o seu filho! João, está vendo minha mãe
Maria? Agora ela é a tua mãe!"
O convite do discipulado de Jesus de Nazaré passa
pela compaixão e pela ação em favor da dor do outro. Quem se dispõe a seguir as
pegadas do Carpinteiro deve entender que passar da morte para vida significa
nunca mais conseguir ver alguém sofrendo sem que nosso espírito se agite com
profunda compaixão.
O discípulo de Cristo deve aprender que no
evangelho, o conceito de família traspassa qualquer relação sanguínea ou
qualquer paramento legal. Pra Jesus, família se compõe de pessoas que se amam,
se preocupam umas com as outras e por isso se cuidam. Nenhum laço sanguíneo é
maior que os laços de amor gerados no derramar do sangue do Cordeiro
No auge de suas
angústias de morte, Jesus bradou, talvez juntando o pouco de fôlego que seus
pulmões ainda conseguiam reter: "Deus meu, Deus meu, por que me
abandonastes?". A multidão que o escutou, viu apenas mais uma razão para
zombar dele.
Ao longo dos
séculos, muitas questões se fazem a respeito dessa declaração. Deus havia mesmo
abandonado Jesus? O Pai teria virado as costas para não contemplar os
sofrimentos do Filho? O Cordeiro de Deus estava cheio das iniquidades dos homens, por isso
Deus se distanciara dele? Essas especulações são apenas o que são:
especulações.
No brado de Cristo encontramos o Filho do Homem
rasgando o coração diante do Pai. O sentimento é de desamparo, de abandono, e
não há nenhum temor em falar sobre isso com Deus, visto ser Ele o Aba, o
Paizinho que se compadece de cada um dos seus filhinhos, sem lhes lançar em
rosto o próprio sofrimento.
Jesus afirmou que Deus continuava sendo seu Deus,
mesmo quando o quadro foi de absoluta perplexidade. É o som da adoração
dolorida, das ações de graças amargas, que existem e persistem na mais terrível
dor. É a adoração de Abraão, subindo o monte Moriá, com o coração pesado e
mergulhado na mais pura angústia, mas mesmo assim em adoração.
Enquanto caminho após o Galileu, aprendo que em
muitos momentos a vida vai se apresentar como absurdo, com dores e
perplexidades extremas, ao ponto de que o sentimento mais forte seja desamparo.
Eu não tenho medo de falar sobre isso com Deus, não temo que Ele fique
melindrado pela minha pequena fé. Desamparo é desamparo e Ele sabe que sou pó!
Mais que isso, quando a vida se mostrar um vale de
sombra e de morte, aprenderei a não duvidar de Ele é meu Deus, e as dores não
colocam essa verdade em cheque, pois é no vale que aprenderei que Ele estará
sempre comigo, mesmo que meu sentimento mais forte seja o de abandono.
Há
quem considere Jesus de Nazaré alguém que estava indo muito bem em seu projeto
de vida, até que a fatalidade da cruz o alcançou e frustrou seus planos. Alguns
o consideram um mártir, que foi até as ultimas consequências pela causa em que
acreditava. Um mártir, que poderia ter sido enforcado, esquartejado,
envenenado, mas acabou sendo crucificado.
O
que o Evangelho deixa claro é que Ele veio para aquela hora. O Calvário foi seu
alvo desde sempre, e sua morte não foi um
imprevisto, nem motivo de comemoração no inferno. Foi na verdade a grande
derrota de todas as potestades malignas.
O Verbo de Deus se fez carne, para que em carne se
tornasse o cordeiro de Deus, imolado antes da fundação do mundo, sacrificado
pelo pecados de todos os homens. Não foi um erro de percurso, nem uma
fatalidade, tampouco poderia ter sido por outro meio. O Cristo veio para se
entregar a morte, e morte sacrificial, pendurado num madeiro, se fazendo
maldição no lugar da raça humana.
Caminhar sob as pegadas do Carpinteiro de Nazaré
significa viver sob a leveza de quem se sabe perdoado desde sempre e para
sempre. Ando convicto de que toda acusação que pesava contra mim ficou cravada
na cruz do calvário. Portanto, não aceito acusações de ninguém: nem do Diabo,
nem do meu passado, nem qualquer um que queira me afastar dessa consciência
gerada na graça de Deus.
Mais que isso, caminho vendo todos os meus
semelhantes como iguais, nivelados pelo pecado, e cobertos pelo sangue da cruz
de Cristo, que nos conduz irmanados nesta convicção: está consumado.
Talvez
não haja medo mais primordial no ser humano do que o medo da morte. Mesmo os
que dizem não terem medo de morrer, fazem tudo para adiar esse momento, ou
flertam com o trágico, como se isso pudesse anular sua força destruidora.
O
Messias veio ao mundo se doar, e se doando viveu seus trinta e poucos anos,
para ao final completar sua doação, entregando a própria vida em resgate do ser
humano. Do Pai viera, e para o Pai voltaria, por isso
não havia o menor resquício de medo da morte em sua alma. Crendo que qualquer
que fosse a circunstância, seu destino o levaria direto aos braços de Deus, fez
a ultima declaração do Calvário: "Pai, em tuas mãos entrego meu
espírito!"
Parece uma declaração de um moribundo, mas na
verdade é a fala de alguém que se sabe cidadão da glória eterna, por isso não
teme entregar tudo nas mãos Deus, todos os dias, enquanto caminha pelo chão da
existência.
Jesus entregou seu espírito nas mãos do Pais todos
os dias em que viveu. Em cada tentação que vencia, em cada bem que fazia, sua
vida foi de entrega, até o momento em que sua entrega tomou plenitude. E tendo
se doado completamente, expirou.
Ser discípulo do Cristo de Deus significa existir
tendo a vida entregue nas mão de Deus, não apenas como uma declaração
imediatamente anterior a morte, mas se entregar todos dos dias, confiando que a
morte será apenas o meio pelo qual serei acolhido pelos braços do Pai, por toda
eternidade.
O discípulo no Nazareno caminha livre de quaisquer
fobias de morte, pois se sabe herdeiro de glória indizível, preparada por Deus
antes que houvesse dia.
Nele, em quem palavras nunca são apenas palavras!
Do
alto da Cruz onde estava pendurado, Jesus declarou, em oração: "Pai
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".
Naquele
momento, Cristo não apenas perdoava, mas clamava ao Pai que também concedesse o
seu perdão, pois aquelas pessoas, de fato, não sabiam o que estavam fazendo.
Cristo
não estava usando um eufemismo nem uma metáfora para atenuar a culpa de seus
algozes.
Ele clamou por perdão para os soldados romanos, que
eram apenas marionetes daquele sistema corrupto. Ele pediu que Herodes e
Pilatos fossem perdoados de sua covardia, condenando aquele que sabiam que ser
inocente. Ele perdoou e pediu perdão para os religiosos, membros do sinédrio
que foram os grandes responsáveis por sua prisão e condenação. Ele perdoou e
pediu ao Pai que perdoasse - pasmem, Judas Iscariotes seu traidor, porque ele
também não sabia o que estava fazendo, visto ter sido enredado pela sua própria
cobiça, escravizado pela ganância.
João, o apóstolo, escreveu que, embora toda maldade
seja pecado existem pecados que não levam à morte. Assim, se um irmão comete um
erro que não seja para morte, devemos clamar ao pai que o perdoe, e dessa forma
nos tornamos parceiros de Cristo, perdoando a tudo e a todos.
Eu não sei quais são os atos que levam à morte, mas
sei que se quero ser discípulo do Nazareno preciso, como condição sine qua non, perdoar! Não existem
instâncias superiores às quais recorrer nem cláusulas de exceção. Quem se sabe
perdoado, perdoa. O Evangelho é simples assim.
Condenado
como um criminoso qualquer, Jesus de Nazaré foi executado como mais um, entre
tantos criminosos que todos os dias eram condenados a morte por crucificação.
Assim, não é nada estranho que com ele mais dois homens tivessem recebido igual
sentença.
Enquanto
agonizava, Jesus ouvia da multidão palavras de escárnio e zombaria. Na mente
religiosa daquele povo não cabia que Deus pudesse se deixar matar. A religião
baseada na lógica de causa e efeito pensa que se
aquele crucificado é de fato quem diz ser - o Filho de Deus, logo deveria
salvar a si mesmo.
Em meio a tantos brados de achincalhamento, um dos
homens crucificados ao lado de Jesus reconhece naquele ser desfigurado pelos
açoites romanos, o próprio Cristo. Dimas, como a tradição histórica passou a
chamar aquele ladrão, sabia que sua própria morte estava acontecendo com
justiça, mas o homem naquela cruz do meio não havia cometido crime algum.
"Quando chegar ao seu reino, lembre-se de
mim" foi a única coisa que Dimas ousou pedir.
"Ainda hoje você vai estar comigo no
paraíso". Não poderia haver resposta mais auspiciosa.
Aquele que se dispõe a seguir os passos de Jesus
Cristo precisa aprender a reconhecer Deus onde não parece haver Deus, como no
rosto ensanguentado e no corpo moído de um condenado a morte de cruz.
Precisa também reconhecer que Ele é Deus, mesmo que
eu mesmo esteja pendurado na cruz. No evangelho não cabem as lógicas da
religião.
Principalmente, o seguidor do Messias precisa
crescer na consciência de que na morte de Jesus, ele foi alcançado por uma
graça indizível, fruto de uma decisão soberana e unilateral de Deus de salvar
aquele que havia se perdido.
Enquanto aprendo a caminhar como um discípulo do
Carpinteiro de Nazaré, entendo que não preciso ter o poder miraculoso de
Moisés, a sabedoria de Salomão ou a ousadia de João, o batista. A mim, basta
receber o mesmo que Dimas recebeu
#sede
A
história da redenção humana não tem como protagonista um homem que se
divinizou, e assim alcançou a estatura elevada de um deus. A história da
redenção fala do Deus soberano que se humanizou.
O
Verbo de Deus, sendo eterno, imutável, todo poderoso, onisciente e com tantas
características impossíveis de serem descritas, se humanizou, se limitou, se
fez semelhante a sua criação, a fim de ensinar o homem a ser de fato humano.
Jesus
viveu da forma mais humana possível, e em sua
agonia de morte não teve nenhum problema em afirmar: "Tenho sede".
Deus, em Jesus, teve sede, assim como já havia experimentado a fome, o sono, o
cansaço, a tristeza e a frustração. E nenhum sentimento ou sensação foi
maquiado por Jesus sob o pretexto de que ser uma divindade significa ser impassível
e inalterável.
Jesus teve sede, mas nem por isso bebeu da mistura
de fel e vinagre que lhe foi oferecida. Teve sede, nas não aceitou algo que não
fosse água. Também não aceitou que sua dor física fosse abrandada por qualquer
anestésico (é provável que fel misturado a vinagre tivesse efeito analgésico).
Tudo o que precisou suportar, Jesus suportou de cara limpa, de frente com a
crueza da vida e dos fatos como eles de fato são.
Se dispor a seguir as pegadas do Galileu significa
assumir nossa humanidade da forma mais plena possível, admitir dores, derramar
lágrimas, sentir a fragilidade dos nossos recursos e vez por outra desejar se
recolher no abraço de alguém.
O discípulo de Jesus deve aprender que estar com
sede não deve leva-lo a aceitar qualquer coisa que não seja água, verdade e
transparência.
O exemplo do Cristo, Filho do Deus Vivo, nos diz que
a vida e suas intempéries devem ser enfrentadas com sobriedade e convicção, sem
aditivos que mascarem a vida do jeito que ela se apresenta. A dor só pode ser
vencida quando enfrentada.
Maria,
esposa de José, da aldeia de Nazaré, tinha muitos filhos. Dois deles - Tiago e
Judas, escreveram cartas que mais tarde compuseram o cânon do Novo Testamento.
Entretanto, no momento mais doloroso de sua vida, nenhum dos filhos gerados por
seu ventre estiveram ao seu lado.
Não
deve haver dor maior do que a de perder um filho nas circunstâncias em que
Maria perdeu. Ela havia carregado aquele rapaz em seu ventre, e o educara como
qualquer mãe judia do seu tempo faria. Viu ele se
tornar um homem bom, que andou por todo lado fazendo o bem. Ela sabia que ele
não havia sido concebido por ações humanas, mas por ato soberano e miraculoso
do Deus de Israel. Naquele momento Maria viu seu primogênito sendo submetido a
um julgamento injusto, sendo torturado com toda crueldade e sendo obrigado a
carregar uma cruz para, ao final, ser nela pregado. Maria sofreu o que nenhuma
mãe deveria sofrer, e sofreu sem que nenhum dos seus outros filhos estivessem
ao lado dela.
Do alto da cruz, Jesus enxergou sua mãe, viu seu
sofrimento e se compadeceu dela. Aliás, exatamente por se compadecer da raça
humana desde a eternidade é que Jesus estava naquela cruz. Ao lado de Maria,
Jesus vê joão, seu discípulo amado, amigo mais íntimo, que havia ficado por ali
enquanto todos os outros fugiram em debandada. Maria precisava de alguém que
cuidasse dela, João tinha carência de um colo maternal. Então Jesus declarou:
"Mãe, olha do seu lado. Aí está o seu filho! João, está vendo minha mãe
Maria? Agora ela é a tua mãe!"
O convite do discipulado de Jesus de Nazaré passa
pela compaixão e pela ação em favor da dor do outro. Quem se dispõe a seguir as
pegadas do Carpinteiro deve entender que passar da morte para vida significa
nunca mais conseguir ver alguém sofrendo sem que nosso espírito se agite com
profunda compaixão.
O discípulo de Cristo deve aprender que no
evangelho, o conceito de família traspassa qualquer relação sanguínea ou
qualquer paramento legal. Pra Jesus, família se compõe de pessoas que se amam,
se preocupam umas com as outras e por isso se cuidam. Nenhum laço sanguíneo é
maior que os laços de amor gerados no derramar do sangue do Cordeiro
No auge de suas
angústias de morte, Jesus bradou, talvez juntando o pouco de fôlego que seus
pulmões ainda conseguiam reter: "Deus meu, Deus meu, por que me
abandonastes?". A multidão que o escutou, viu apenas mais uma razão para
zombar dele.
Ao longo dos
séculos, muitas questões se fazem a respeito dessa declaração. Deus havia mesmo
abandonado Jesus? O Pai teria virado as costas para não contemplar os
sofrimentos do Filho? O Cordeiro de Deus estava cheio das iniquidades dos homens, por isso
Deus se distanciara dele? Essas especulações são apenas o que são:
especulações.
No brado de Cristo encontramos o Filho do Homem
rasgando o coração diante do Pai. O sentimento é de desamparo, de abandono, e
não há nenhum temor em falar sobre isso com Deus, visto ser Ele o Aba, o
Paizinho que se compadece de cada um dos seus filhinhos, sem lhes lançar em
rosto o próprio sofrimento.
Jesus afirmou que Deus continuava sendo seu Deus,
mesmo quando o quadro foi de absoluta perplexidade. É o som da adoração
dolorida, das ações de graças amargas, que existem e persistem na mais terrível
dor. É a adoração de Abraão, subindo o monte Moriá, com o coração pesado e
mergulhado na mais pura angústia, mas mesmo assim em adoração.
Enquanto caminho após o Galileu, aprendo que em
muitos momentos a vida vai se apresentar como absurdo, com dores e
perplexidades extremas, ao ponto de que o sentimento mais forte seja desamparo.
Eu não tenho medo de falar sobre isso com Deus, não temo que Ele fique
melindrado pela minha pequena fé. Desamparo é desamparo e Ele sabe que sou pó!
Mais que isso, quando a vida se mostrar um vale de
sombra e de morte, aprenderei a não duvidar de Ele é meu Deus, e as dores não
colocam essa verdade em cheque, pois é no vale que aprenderei que Ele estará
sempre comigo, mesmo que meu sentimento mais forte seja o de abandono.
Há
quem considere Jesus de Nazaré alguém que estava indo muito bem em seu projeto
de vida, até que a fatalidade da cruz o alcançou e frustrou seus planos. Alguns
o consideram um mártir, que foi até as ultimas consequências pela causa em que
acreditava. Um mártir, que poderia ter sido enforcado, esquartejado,
envenenado, mas acabou sendo crucificado.
O
que o Evangelho deixa claro é que Ele veio para aquela hora. O Calvário foi seu
alvo desde sempre, e sua morte não foi um
imprevisto, nem motivo de comemoração no inferno. Foi na verdade a grande
derrota de todas as potestades malignas.
O Verbo de Deus se fez carne, para que em carne se
tornasse o cordeiro de Deus, imolado antes da fundação do mundo, sacrificado
pelo pecados de todos os homens. Não foi um erro de percurso, nem uma
fatalidade, tampouco poderia ter sido por outro meio. O Cristo veio para se
entregar a morte, e morte sacrificial, pendurado num madeiro, se fazendo
maldição no lugar da raça humana.
Caminhar sob as pegadas do Carpinteiro de Nazaré
significa viver sob a leveza de quem se sabe perdoado desde sempre e para
sempre. Ando convicto de que toda acusação que pesava contra mim ficou cravada
na cruz do calvário. Portanto, não aceito acusações de ninguém: nem do Diabo,
nem do meu passado, nem qualquer um que queira me afastar dessa consciência
gerada na graça de Deus.
Mais que isso, caminho vendo todos os meus
semelhantes como iguais, nivelados pelo pecado, e cobertos pelo sangue da cruz
de Cristo, que nos conduz irmanados nesta convicção: está consumado.
Talvez
não haja medo mais primordial no ser humano do que o medo da morte. Mesmo os
que dizem não terem medo de morrer, fazem tudo para adiar esse momento, ou
flertam com o trágico, como se isso pudesse anular sua força destruidora.
O
Messias veio ao mundo se doar, e se doando viveu seus trinta e poucos anos,
para ao final completar sua doação, entregando a própria vida em resgate do ser
humano. Do Pai viera, e para o Pai voltaria, por isso
não havia o menor resquício de medo da morte em sua alma. Crendo que qualquer
que fosse a circunstância, seu destino o levaria direto aos braços de Deus, fez
a ultima declaração do Calvário: "Pai, em tuas mãos entrego meu
espírito!"
Parece uma declaração de um moribundo, mas na
verdade é a fala de alguém que se sabe cidadão da glória eterna, por isso não
teme entregar tudo nas mãos Deus, todos os dias, enquanto caminha pelo chão da
existência.
Jesus entregou seu espírito nas mãos do Pais todos
os dias em que viveu. Em cada tentação que vencia, em cada bem que fazia, sua
vida foi de entrega, até o momento em que sua entrega tomou plenitude. E tendo
se doado completamente, expirou.
Ser discípulo do Cristo de Deus significa existir
tendo a vida entregue nas mão de Deus, não apenas como uma declaração
imediatamente anterior a morte, mas se entregar todos dos dias, confiando que a
morte será apenas o meio pelo qual serei acolhido pelos braços do Pai, por toda
eternidade.
O discípulo no Nazareno caminha livre de quaisquer
fobias de morte, pois se sabe herdeiro de glória indizível, preparada por Deus
antes que houvesse dia.
Nele, em quem palavras nunca são apenas palavras!
sábado, 30 de maio de 2015
UMA BACIA, UMA TOALHA E UMA CURA
Em minha caminhada pelo chão da
vida me deparei com muitos percalços. Consegui me desvencilhar da maioria deles, mas
houve um dia em que me vi com os pés afundados num atoleiro. Tentei dar um
jeito naquela sujeira toda, mas acabei percebendo que o melhor seria voltar pra
casa. Lá eu poderia me lavar.
Enquanto caminhava, sentia meu coração
pesaroso, como se estivesse sendo esmagado por mãos gigantescas. Cansaço,
enfado, tudo parecia uma piada de péssimo gosto. “Droga de vida”, pensei quando
ao longe avistei minha casa.
Faltavam alguns metros para
chegar na casa quando a porta da frente se abriu, e meu Pai surgiu na soleira,
com aquele sorriso amoroso que me era tão familiar. Ele veio em minha direção e
me recebeu com um abraço. Ele me fez entrar e me ofereceu uma poltrona onde eu poderia
descansar um pouco.
Estava me sentindo envergonhada, sem
conseguir olha-Lo nos olhos. Ele ali, me acolhendo com tanto carinho e eu com
pés completamente enlameados. Desviei o olhar para o chão e tentei iniciar uma
conversa despretensiosa. Talvez falar sobre qualquer frivolidade tirasse toda
aquela sujeira do centro das atenções. Não tirou.
Enquanto eu falava, Ele se
afastou calmamente, pegou uma bacia e uma toalha e se inclinou diante de mim. Tocou
meus pés imundos e começou a lavá-los.
- Por favor, não faz isso. Não é necessário
- repliquei angustiada.
Ele apenas sorriu, e amorosamente
me falou:
- Claro que é, seus pés estão
imundos. Mas eu vou resolver isso.
- Não preciso que faça isso, eu
mesmo me limparei – minha voz se tornara ríspida, quase autoritária.
- Você não consegue, não sozinha – Ele não mudava
o tom doce e suave de sua voz.
Por fim, eu acabei desabando. Todas
as minhas pretensões caíram por terra. Ele me conhecia inteiramente. Diante dele
eu era um completo flagrante.
- Pai, estou tão envergonhada. Eu
não queria que isso tivesse acontecido, eu não queria te decepcionar dessa
maneira...
- Não se preocupe com isso filha.
Você não me decepcionou. Eu nunca me esqueço da sua estrutura, sei que você é
pó. Além disso, não há nada que possa alterar a comunhão que temos. Nada poderá
te levar pra longe do meu amor.
- Pai, acho que preciso de um
banho completo.
Ele não respondeu. Pacientemente ele
terminou de lavar meus pés, os enxugou com a toalha, e sentou-se ao meu lado.
- Filha, você já está limpa. Minha
palavra habita em você, e isso é o que te purifica. O chão da vida te sujou os
pés, mas eu posso te limpar. Todos os sonhos que tenho pra você ainda estão vivos,
e nada poderá frustrar os planos que tenho para o teu futuro. Você não deixou
de ser quem é, e eu não mudei minha atitude a teu respeito. Não há nada na
terra, nem nos céus, nem debaixo da terra, que possa me afastar de você.
- Pai, eu errei tanto!
- Eu sei filha. Mas eu não te
condeno. Perdoados estão os teus pecados. Agora, retome a tua caminhada. Não há
santo que, andando pelo chão da vida, não suje os pés. Você só precisa lembrar-se
de sempre me procurar, eu posso te lavar.
Senti como se irrompesse uma
chuva de graça sobre mim, me vi envolta por uma nuvem de amor. As mãos que
apertavam meu coração se soltaram e eu suspirei com alivio e leveza. Levantei-me
com um novo ânimo, uma nova perspectiva. Sentia-me renovada e pronta para
caminhar muitas milhas. O Pai me abraçou e novamente sorriu pra mim.
Quanto já tinha virado as os
costas para partir, ouvi sua voz me chamando. Quando me virei, ele me estendeu a bacia e toalha
que ainda segurava.
- Filha, leve isso com você. Você
vai encontrar muita gente assim, precisando da mesma cura que você recebeu. O que
fiz por você, faça a todos quantos encontrar.
Nele, que não nos trata conforme nossos pecados!
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