"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Uma igreja (ir)relevante

Em julho de 2002 a revista Veja trouxe uma reportagem de capa com o título “A nação evangélica”. A referida reportagem tratava do exorbitante aumento no número de brasileiros que se declaravam pertencentes a alguma igreja evangélica. Recentemente (agosto de 2011, mais exatamente), o site G1, tendo por base o último censo realizado, publicou uma matéria acerca do perfil religioso do Brasil (AQUI) Segundo a reportagem, o crescimento do número de evangélicos no país havia estagnado por um período, voltando a crescer nos últimos anos. Atualmente os evangélicos representam 20,2% da população brasileira (em 2003 eram 17,9%) contra 68,4% de católicos (73,8% em 2003).

Números como esses deixam nós, os crentes, embasbacados e cheios de orgulho. Ficamos envaidecidos em saber que não somos mais um movimento marginal. Somos uma parcela significativa da população, do mercado consumidor e do eleitorado. Os marqueteiros e candidatos a cargos políticos precisam ter os olhos atentos sobre nós, afinal somos numerosos e temos força para decidir os rumos da nação. Também ficamos cheios de orgulho por vermos a mídia oferecendo cada vez mais espaço aos nossos cantores. Não nos cabemos de alegria quando algum pastor sensacionalista aparece em rede nacional para defender o ponto de vista do povo evangélico e ser nossa voz. O orgulho beira a empáfia, quando a Rede Globo noticia mais uma Marcha pra Jesus ou o Kaká, consagrando a Deus seu troféu de melhor jogador do mundo.

Entretanto, diante dessas estatísticas e desses fatos, eu já não consigo mais me empolgar como antes. Tenho a nítida impressão de que alguma coisa se perdeu em meio a todo esse crescimento. A pergunta que eu me faço é: por que o crescimento do número de evangélicos no Brasil não tem cooperado para que nossa nação se torne um país melhor para se viver?

Os dados que nós temos tanto prazer em anunciar não deveriam ser apenas números, mas deveriam causar algum impacto positivo em nossa nação. Afinal se somos sal e luz, temos a intrínseca obrigação de mudar a realidade ao nosso redor.

Quanto mais sal, mais sabor e menos deterioração. Quanto mais luz, menos trevas e mais vida.

Mas o que vemos é exatamente o contrário. Os problemas sociais enfrentados pelos brasileiros recrudescem a olhos vistos. Mesmo elegendo vários deputados e senadores crentes, a cada dia temos mais casos de escândalos políticos e já nem nos importamos mais com notícias de corrupção. A cada dia aumenta a violência, a criminalidade e os efeitos perversos do tráfico de drogas. As péssimas condições de vida nos subúrbios das grandes cidades estão cada vez “mais péssimas”, e os sertões continuam mais miseráveis a cada dia. Crianças se entregam cada vez cedo mais ao crack. A exploração sexual infantil parece ser causa perdida, e a pedofilia se alastra como fogo num rastilho de pólvora. A juventude se perde no álcool e em outras drogas. O analfabetismo, a má qualidade da educação pública e o números de pessoas morrendo em filas de hospitais são notícias que nem nos chocam mais.

Isso sem citar os problemas morais: famílias desestruturadas por adultério e divórcio; promiscuidade e permissividade; inversão de valores; violência doméstica; falta de diálogo; falta de amor.

E quando olho pra esse cenário amedrontador, uma pergunta (mais uma) paira no ar: onde está a Igreja de Cristo?

Sinto-me constrangida e envergonhada por perceber que uma igreja tão numerosa e tão ativa quando o assunto é fazer romaria atrás de algum superstar gospel, age de forma tão apática e egoísta quando o assunto é fazer de fato a diferença na vida das pessoas que (pensamos que) alcançamos. Enquanto prometemos um céu para alma, não criamos um mundo melhor para o corpo. Aliás, a promessa do céu se tornou escapismo pra todo e qualquer tipo de problema que enfrentamos. Ao invés de sairmos do aquário e buscarmos uma solução, preferimos fechar os olhos e sonhar com a eternidade.

Faço coro com Neil Barreto, quando diz que precisamos anunciar não só o evangelho que quer levar a alma do sujeito pro céu, mas também o evangelho que quer abençoar o corpo do sujeito cuja alma a gente quer levar pro céu.

O numero de evangélicos cresce e, de forma completamente desproporcional, crescem os problemas. Abrem-se a cada dia mais templos evangélicos, mas o impacto social dessas igrejas é insignificante. O sal perdeu o sabor, a luz perdeu o brilho, e o aroma de Cristo se dissipou em meio a podridão do comodismo e da falta de compaixão. Sobram declarações do tipo “o Brasil pertence ao Senhor Jesus”, e faltam ações que tornem isso realidade.

Que cristianismo safado é esse, que faz movimento e luta contra leis pró casamento gay, mas não age pra mudar a vida de centenas de brasileiros que vivem abaixo da linha da miséria, cujos filhos crescem brincando no lixo e bebendo água de esgoto? Que cristianismo é esse, que elege deputados evangélicos, mas não age efetivamente contra a corrupção e a roubalheira, que tira o pão da mesa de tanta gente? Que religiãozinha meia-boca é essa, que distribui bíblias, onde há necessidade de alimentos e remédios? Que cristianismo barato é esses, que “prega a palavra”, onde o que mais se precisa é de abraço, de amor e de compaixão.

As pessoas que têm se declarado evangélicas, e engrossado as estatísticas, se encontraram com qualquer coisa, menos como o evangelho genuíno, tal qual anunciado por Cristo. Encontraram-se com uma religião, cheia de dogmas e preceitos, mas sem nenhum desdobramento prático. Encontraram-se com um grupo de apoio e auto-ajuda, com discursos cheios palavras de efeito e jargões motivacionais, mas sem nenhum efeito sobre a vida vivida fora dos limites do templo. Encontraram-se com um pronto-socorro existencial, pra onde podem correr quando enfrentam doenças e crises financeiras, mas que em nada ajudam a serem pessoas mais humanas. Encontraram-se com um evangelicalismo barato, travestido de evangelho de Cristo.

Fico imaginando o que aconteceria se cada crente assumisse a postura de um cristão verdadeiro, tal como o mestre nos ensinou, e saísse pelo mundo com a missão de cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros. Se cada um de nós saísse a proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram no Brasil, uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Aí então experimentaríamos uma revolução em nossa nação.

O problema é que no Brasil existe muito joio e pouco trigo, muita igreja, e pouca Igreja.

Já passa da hora em que a Igreja de Cristo, a Noiva do Cordeiro, deve romper com os laços religiosos e denominacionalistas, e se levantar sobre nosso país como um braço forte em defesa do pobre, do oprimido,  do rejeitado e de todo aquele que não tem voz, lutando por uma sociedade mais justa é mais digna. É tempo de cada cristão de tornar um obreiro em potencial, e se engajar na construção do reino de Deus, que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

 Nele, que promete sarar nossa terra.