"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Uma igreja (ir)relevante

Em julho de 2002 a revista Veja trouxe uma reportagem de capa com o título “A nação evangélica”. A referida reportagem tratava do exorbitante aumento no número de brasileiros que se declaravam pertencentes a alguma igreja evangélica. Recentemente (agosto de 2011, mais exatamente), o site G1, tendo por base o último censo realizado, publicou uma matéria acerca do perfil religioso do Brasil (AQUI) Segundo a reportagem, o crescimento do número de evangélicos no país havia estagnado por um período, voltando a crescer nos últimos anos. Atualmente os evangélicos representam 20,2% da população brasileira (em 2003 eram 17,9%) contra 68,4% de católicos (73,8% em 2003).

Números como esses deixam nós, os crentes, embasbacados e cheios de orgulho. Ficamos envaidecidos em saber que não somos mais um movimento marginal. Somos uma parcela significativa da população, do mercado consumidor e do eleitorado. Os marqueteiros e candidatos a cargos políticos precisam ter os olhos atentos sobre nós, afinal somos numerosos e temos força para decidir os rumos da nação. Também ficamos cheios de orgulho por vermos a mídia oferecendo cada vez mais espaço aos nossos cantores. Não nos cabemos de alegria quando algum pastor sensacionalista aparece em rede nacional para defender o ponto de vista do povo evangélico e ser nossa voz. O orgulho beira a empáfia, quando a Rede Globo noticia mais uma Marcha pra Jesus ou o Kaká, consagrando a Deus seu troféu de melhor jogador do mundo.

Entretanto, diante dessas estatísticas e desses fatos, eu já não consigo mais me empolgar como antes. Tenho a nítida impressão de que alguma coisa se perdeu em meio a todo esse crescimento. A pergunta que eu me faço é: por que o crescimento do número de evangélicos no Brasil não tem cooperado para que nossa nação se torne um país melhor para se viver?

Os dados que nós temos tanto prazer em anunciar não deveriam ser apenas números, mas deveriam causar algum impacto positivo em nossa nação. Afinal se somos sal e luz, temos a intrínseca obrigação de mudar a realidade ao nosso redor.

Quanto mais sal, mais sabor e menos deterioração. Quanto mais luz, menos trevas e mais vida.

Mas o que vemos é exatamente o contrário. Os problemas sociais enfrentados pelos brasileiros recrudescem a olhos vistos. Mesmo elegendo vários deputados e senadores crentes, a cada dia temos mais casos de escândalos políticos e já nem nos importamos mais com notícias de corrupção. A cada dia aumenta a violência, a criminalidade e os efeitos perversos do tráfico de drogas. As péssimas condições de vida nos subúrbios das grandes cidades estão cada vez “mais péssimas”, e os sertões continuam mais miseráveis a cada dia. Crianças se entregam cada vez cedo mais ao crack. A exploração sexual infantil parece ser causa perdida, e a pedofilia se alastra como fogo num rastilho de pólvora. A juventude se perde no álcool e em outras drogas. O analfabetismo, a má qualidade da educação pública e o números de pessoas morrendo em filas de hospitais são notícias que nem nos chocam mais.

Isso sem citar os problemas morais: famílias desestruturadas por adultério e divórcio; promiscuidade e permissividade; inversão de valores; violência doméstica; falta de diálogo; falta de amor.

E quando olho pra esse cenário amedrontador, uma pergunta (mais uma) paira no ar: onde está a Igreja de Cristo?

Sinto-me constrangida e envergonhada por perceber que uma igreja tão numerosa e tão ativa quando o assunto é fazer romaria atrás de algum superstar gospel, age de forma tão apática e egoísta quando o assunto é fazer de fato a diferença na vida das pessoas que (pensamos que) alcançamos. Enquanto prometemos um céu para alma, não criamos um mundo melhor para o corpo. Aliás, a promessa do céu se tornou escapismo pra todo e qualquer tipo de problema que enfrentamos. Ao invés de sairmos do aquário e buscarmos uma solução, preferimos fechar os olhos e sonhar com a eternidade.

Faço coro com Neil Barreto, quando diz que precisamos anunciar não só o evangelho que quer levar a alma do sujeito pro céu, mas também o evangelho que quer abençoar o corpo do sujeito cuja alma a gente quer levar pro céu.

O numero de evangélicos cresce e, de forma completamente desproporcional, crescem os problemas. Abrem-se a cada dia mais templos evangélicos, mas o impacto social dessas igrejas é insignificante. O sal perdeu o sabor, a luz perdeu o brilho, e o aroma de Cristo se dissipou em meio a podridão do comodismo e da falta de compaixão. Sobram declarações do tipo “o Brasil pertence ao Senhor Jesus”, e faltam ações que tornem isso realidade.

Que cristianismo safado é esse, que faz movimento e luta contra leis pró casamento gay, mas não age pra mudar a vida de centenas de brasileiros que vivem abaixo da linha da miséria, cujos filhos crescem brincando no lixo e bebendo água de esgoto? Que cristianismo é esse, que elege deputados evangélicos, mas não age efetivamente contra a corrupção e a roubalheira, que tira o pão da mesa de tanta gente? Que religiãozinha meia-boca é essa, que distribui bíblias, onde há necessidade de alimentos e remédios? Que cristianismo barato é esses, que “prega a palavra”, onde o que mais se precisa é de abraço, de amor e de compaixão.

As pessoas que têm se declarado evangélicas, e engrossado as estatísticas, se encontraram com qualquer coisa, menos como o evangelho genuíno, tal qual anunciado por Cristo. Encontraram-se com uma religião, cheia de dogmas e preceitos, mas sem nenhum desdobramento prático. Encontraram-se com um grupo de apoio e auto-ajuda, com discursos cheios palavras de efeito e jargões motivacionais, mas sem nenhum efeito sobre a vida vivida fora dos limites do templo. Encontraram-se com um pronto-socorro existencial, pra onde podem correr quando enfrentam doenças e crises financeiras, mas que em nada ajudam a serem pessoas mais humanas. Encontraram-se com um evangelicalismo barato, travestido de evangelho de Cristo.

Fico imaginando o que aconteceria se cada crente assumisse a postura de um cristão verdadeiro, tal como o mestre nos ensinou, e saísse pelo mundo com a missão de cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros. Se cada um de nós saísse a proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram no Brasil, uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Aí então experimentaríamos uma revolução em nossa nação.

O problema é que no Brasil existe muito joio e pouco trigo, muita igreja, e pouca Igreja.

Já passa da hora em que a Igreja de Cristo, a Noiva do Cordeiro, deve romper com os laços religiosos e denominacionalistas, e se levantar sobre nosso país como um braço forte em defesa do pobre, do oprimido,  do rejeitado e de todo aquele que não tem voz, lutando por uma sociedade mais justa é mais digna. É tempo de cada cristão de tornar um obreiro em potencial, e se engajar na construção do reino de Deus, que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

 Nele, que promete sarar nossa terra.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

10 Patologias Religiosas (a cura é mais simples do que voce imagina!)


Já faz um tempo que tenho notado o quanto os meios religiosos podem se tornar doentios e adoecedores. Muitos pseudo-cristãos afirmam crer no Deus Jeová Rafah, que tem o poder de curar qualquer enfermidade, mas a vida prática mostra que esses religiosos sequer conhecem o Deus sobre o qual falam de forma tão veemente. Dessa forma, nos ambientes eclesiásticos, se proliferam a cada dia de forma mais rápida, inúmeras doenças, que estão corroendo as almas de muitas pessoas bem intencionadas, cujo único objetivo de vida é servir a Deus sinceramente.

Infelizmente o deus apresentado em muitas “igrejas” é completamente diferente do Deus verdadeiro, apresentado na bíblia e encarnado em Jesus. Esse “deus estranho” é vingativo, moralmente corruptível, ama de forma condicional, tem prazer em lançar maldições e muitas vezes se associa ao Diabo para exercer juízo sobre filhos desobedientes. Assim, não é de se estranhar a alta incidência de doenças religiosas entre aqueles que seguem esse deus doente.

Abaixo, elenquei algumas, entre tantas outras, enfermidades que atingem a alma dos religiosos:



1 - Distimia: O termo distimia significa etimologicamente "mal-humorado". É um tipo de depressão crônica do humor que não ocorre em episódios (é contínua) e traz sofrimento e prejuízo significativos para o paciente. São aquelas pessoas que "vivem com uma nuvem negra acima da cabeça" (é normal que eventualmente estejamos mal-humorados ou tristes, mas não sempre!). Considerando que os meios religiosos em geral, pregam que uma vida corretamente vivida, deve ser austera, sisuda e sorumbática, não é de se estranhar a grande ocorrência de distimia religiosa. O principal sintoma é a abstenção gradual e contínua de tudo o que traz prazer físico. Assim, a fim de manter o rótulo de “bom crente”, os religiosos evitam dançar, sair com amigos, rir a toa, fazer programas divertidos com a família, etc., considerando que o tempo bem aproveitado é aquele dedicado às “coisas de Deus”.

2 - Fobia: É um grupo de transtornos no qual a ansiedade é evocada predominantemente por certas situações ou objetos bem definidos, os quais não são considerados perigosos. A ansiedade pode variar de um desconforto até uma sensação de pavor. A perspectiva de passar pela situação fóbica geralmente gera ansiedade antecipatória. Entre as fobias religiosas mais comuns encontram-se: medo do inferno; medo de pecar contra o Espírito Santo; medo de dar brecha ao Diabo; medo de maldição por sonegação do dízimo; medo de maldição lançada pelos líderes; medo de maldição por se insurgir contra os ungidos do Senhor; medo de maldição hereditária; medo de maldição, apenas. É muito incentivada pelos líderes religiosos, por ser uma forma eficaz de controle.

3 - O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC): trata-se de uma doença que a pessoa se torna vítima de pensamentos e comportamentos repetitivos, que não tem sentido, são desagradáveis e muito difíceis de evitar. Alguns exemplos são:
- Ligar a televisão todos os dias, no mesmo horário, no mesmo canal, assistir ao mesmo tele-evangelista, e todos os dias colocar sobre a televisão um copo com água para que este seja abençoado.
- Associar qualquer sonho a revelação de Deus;
- Dizer palavras tais como “tá amarrado” e “eu te repreendo” diante de qualquer situação desagradável;
- Usar objetos, tais com toalhas, mantos, travesseiros, rosas, entre outros, como se esses tivesse poder para curar doenças e solucionar problemas.
- Exigir constantemente que algum “homem de Deus ungido” toque em sua cabeça a fim de liberar “unção”.

4 - Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade: trata-se de um transtorno caracterizado pela clássica tríade de sintomas que inclui: falta de concentração, impulsividade e hiperatividade ou excesso de energia. Este transtorno é encontrado principalmente entre obreiros e ministros, cujas vidas se tornam pequenas demais para tantos projetos e empreender. São pessoas que se esquecem totalmente da vida pessoal, social, emocional e familiar, e se dedicam exclusivamente aos assuntos religiosos, ou ministérios, como costumam chamar. Com o passar do tempo, tais pessoas se tornam hostis e ensimesmadas, incapazes de enxergar qualquer coisa que esteja fora o circulo religioso ao qual pertencem.

5 - Transtorno do pânico: É uma doença grave e incapacitante que traz sérios danos à vida de seus portadores. Os sintomas, entre outros, são: dor ou desconforto no peito, sensação de morte iminente, medo intenso de enlouquecer ou cometer ato descontrolado. O medo se transforma em pavor, e torna a pessoa vulnerável a ação de profissionais da fé, que inoculam em suas vitimas mais e mais medo, gerando ainda mais pânico, e tornando o paciente facilmente manipulável pela promessa de que todas as ameaças poderão ser neutralizadas a partir do cumprimento de certos rituais, que normalmente envolvem doações financeiras.

6 - Autismo: é uma doença caracterizada por dificuldade de interação social, dificuldade em comunicação verbal e não-verbal, alterações do comportamento (movimentos estereotipados, repetitivos, sem função). Acomete muitíssimo os religiosos, que por serem extremamente segregadores e sectários, costumam desprezar quaisquer pessoas que tenham uma visão diferente da sua, o que causa inúmeros problemas relacionais nos meio social. Os autistas religiosos normalmente são vistos como pessoas mal educadas, fechadas a novos relacionamentos e socialmente bitoladas, além de sempre considerarem suas ideias e opiniões mais elevadas e nobres que as demais.

7 - Demência: é o quadro caracterizado por limitações graves de memória, afetando também o poder de julgamento e a orientação no tempo e no espaço. Muitos religiosos são afetados por esse distúrbio, o que os leva a crer cegamente em tudo o que ouvem de determinados lideres, cumprir rituais rídiculos e supersticiosos, perder por completo o senso crítico acerca do que é vaticinado nos púlpitos e principalmente fazer promessas e compromissos financeiros muito maiores do que realmente podem cumprir. Esta patologia também pode ser chamada de suicídio intelectual, por que muitas vezes é deliberadamente provocada pelo medo de questionar.

8 - Transtorno de ansiedade de separação: é um medo exagerado e intenso de perder um dos pais ou o guru espiritual. Algumas pessoas passam a enxergar seus líderes como verdadeiros mediadores entre Deus e os homens, o que os leva a entrar em crise a cada ameaça de separação. É comum que as pessoas afetadas por essa doença vivam ligados a seus gurus de forma quase umbilical, recorrendo aos mesmos diante de qualquer problema, ou na tomada de qualquer decisão. As afirmações do líder são consideradas infalíveis e irrevogáveis, além de terem o poder de suplantar a bíblia.

9 - Anorexia: após ser exposta a diversos alimentos prejudiciais a sua alma, muitas pessoas optam por deixar de se alimentar por completo. Geralmente essas pessoas confundem a comida nojenta e contaminada servida em diversas instituições religiosas com o alimento genuíno e não falsificado oferecido pela palavra de Deus. Os principais sintomas são raquitismo espiritual e falta da energia mínima necessária a sobrevivência. A negação de se alimentar por um longo período inevitavelmente leva a morte espiritual por anemia e desnutrição.

10 - Transtorno do stress pós-traumático: este transtorno pode ocorrer em praticamente qualquer pessoa que tenha sido exposta a uma situação traumática de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, como por exemplo, desastres naturais, acidentes graves, tortura, guerra, profecias falsas, promessas não cumpridas, ou o assédio moral de um líder religioso. Os pacientes diagnosticados com esta patologia normalmente sentem pavor diante de manifestações religiosas, pois carregam em si marcas profundas deixadas por pessoas supostamente enviadas por Deus. Os ferimentos que causam stress pós-traumático são comumente atribuídos a pessoa do Deus Todo-Poderoso, por que muitas pessoas realmente acreditavam que era Ele quem falava pela boca dos falsos profetas e pseudo obreiros. 

Existe ainda o assédio moral, que não é uma doença, mas sim a causa de várias doenças. Trata-se de um tipo de comportamento caracterizado pelo desrespeito à pessoa humana, através de uma atitude hostil de uma ou várias pessoas, de forma regular e prolongada. Como conseqüência, a pessoa sente-se cada vez mais desestruturada psicologicamente, o que pode levá-la a transtornos mentais, à depressão, ao uso de drogas e até ao suicídio. É comumente praticada por líderes religiosos contra seus seguidores (ou rebanho), e tem o objetivo de manter a ordem, o respeito, e principalmente a autoridade. As vítimas normalmente são pessoas muito bem intencionadas, que por sofrerem outros distúrbios (fobia de maldição, por exemplo), se submete aos desvarios de seus algozes, digo, pastores.

Bem, diferente do que se imagina, a cura para todas essas doenças é muito simples e está alcance de todos. Bastam generosas doses diárias da palavra de Deus (a genuína, não a falsificada) para que dentro de pouquíssimo tempo o indivíduo doente comece a perceber sinais de cura.

Nele, que por ter levado sobre si todas as nossas enfermidades, nos chama a viver a vida de forma saudável e abundante.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A história de um rompimento

Era uma vez uma pessoa extremamente religiosa.

Um dia essa pessoa percebeu que sua religiosidade não tinha nenhum valor diante da infinita misericórdia e da inesgotável graça de Deus. Então decidiu romper com o sistema religioso no qual estava inserido e iniciar uma nova caminhada com Deus.

Ao partir nesta nova jornada, esta pessoa escreveu uma carta de desabafo, que provavelmente seja o grito sufocado de muitas pessoas que são escravas do sistema religioso. Por isso, decidi transcrever aqui essa carta anônima. Espero que muitos notem que não são os únicos oprimidos pela instituição que arvorou para si o direito de ser chamada de igreja.

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Um lugar qualquer, 18 de julho de 2011.

Agora é oficial: não faço mais parte daquele sistema religioso. Hoje tornei pública esta decisão, que dentro de mim vinha sendo tomada há muito tempo.

Sei que esta atitude poderá causar incômodo em algumas pessoas. Não que minha presença neste lugar seja imprescindível, sei que não é. O que acontece de fato é que minha história passa pela igreja na qual nasci, fui batizada nas águas, me casei, consagrei minha filha a Deus. Foi nesta igreja que vi despertar o meu ministério, na área ensino e da pregação. Enfim, esta era minha igreja.

Nunca fui uma pessoa que, nos meios eclesiásticos, devesse ser taxada como problemática. Nunca tive problemas com os tais usos e costumes nem tropecei na dita submissão às autoridades divinamente constituídas. Não estou saindo após alguma briga ou discussão com meus líderes. Tampouco estou me insurgindo contra quem que seja. Na verdade, o que aconteceu hoje nada mais é do que o resultado de um lento processo, de uma série de acontecimentos, e principalmente, de uma profunda transformação que tem acontecido no meu interior.

O processo que desembocou na minha decisão de sair desta instituição religiosa começou há uns três ou quatro anos, quando alguns princípios do evangelho me foram apresentadas de uma forma até então nova pra mim. Muitos paradigmas começaram a ser quebrados em minha vida, e “verdades” até então absolutas foram questionadas. Uma verdadeira desconstrução começava abalar as paredes do meu interior.

Aos poucos, comecei a perceber quão doentio havia se tornado o ambiente no qual eu vivia e (achava que) servia a Deus. Os gravíssimos erros cometidos por aqueles a quem eu considerava verdadeiros ministros de Deus, começaram a ficar muito nítidos pra mim. Não que eu os desconhecesse, mas aos poucos eles foram se evidenciando e me incomodando cada vez mais, até que ficou insuportável.

Era insuportável saber que histórias muito pessoais segredadas no gabinete pastoral, eram espalhadas aos quatro ventos. Questões muito íntimas, problemas muito pessoais, confissões no mínimo constrangedoras, confidenciadas a pessoa do pastor, eram anunciadas a todos. Nada era mantido em sigilo.

Era insuportável assistir a exposição vergonhosa que se fez de muitos membros da igreja. A exposição de pecados cometidos, como se fossem as chagas em um leproso, me causava ânsias. Ver famílias inteiras sendo envergonhadas em nome de um sistema opressor era insuportável.

Era insuportável saber que um pecado que não tenha sido confessado no gabinete pastoral e exposto a toda comunidade nunca é considerado perdoado. Enquanto criticam os intercessores entre Deus e os homens criados por outras religiões, homens arrogantes agem como se intercessores fossem.

Era insuportável ver questiúnculas ganharem proporções agigantadas, e atropelaram pessoas. Era demasiadamente incômodo ver que o ser humano não tinha nenhuma importância diante das convenções e das tradições. Assistir gente sendo ferida por causa de brincos, bermudas e jogos de pelada entre amigos, me era insuportável. Perceber que enquanto se faziam reuniões para discussão destes assuntos, almas se perdiam sem nenhuma assistência ou ajuda, se tornou um peso insuportável.

Por falar em assistência, era insuportável ver ajuda (material ou espiritual) sendo condicionada ao bom comportamento das pessoas. A relevância social da igreja sempre foi ínfima, afinal como eles mesmos dizem “igreja não é instituição de caridade”.

Era insuportável ver o cerceamento da liberdade, da criatividade e da individualidade dos membros da comunidade. Insuportável ver ministérios sendo podados por pura intransigência dos donos da igreja. Insuportável saber que ali, a única forma aceitável de servir a Deus é aquela que está moldada pela cartilha da denominação. É insuportável saber que existem pessoas que se consideram donos dos dons e talentos dos membros da igreja, e se acham no direito de dizer como devem ser exercidos.

Era insuportável ver que mostrar poder era um hábito mais arraigado do que tratar as pessoas com o mínimo de respeito e educação. As palavras “essa igreja ainda tem pastor presidente”, proferidas contra uma pessoa muito amada, ecoam nos meus ouvidos e me causam asco. É insuportável ver pessoas sendo pisadas e humilhadas, apenas por que alguém teve seu ego ferido ou precisa mostrar o poder que tem nas mãos.

Era insuportável a ostentação, a mania de grandeza, os projetos megalomaníacos. Insuportável o desprezo que sempre se fez de outras igrejas e de outros pastores. Insuportável a liturgia engessada, a teologia rala e a mesmice instaurada quase como regulamento estatutário.

Era insuportável assistir aos ridículos espetáculos que as muitas vacas de presépio promoviam. Aquela quase idolatria a personalidade do líder, sempre cercado de fantoches, me enojava. Saber com que tipo de rédea toda liberdade de expressão era cerceada estava cada vez mais insuportável.

Mesmo convivendo com tantas pessoas que buscavam servir a Deus com sinceridade, era insuportável ver a hipocrisia estampada no rosto de tantos. E mais insuportável ainda era notar que eu também estava me tornando uma pessoa hipócrita e doente.

Então, soltei meu grito desesperado: "Ai de mim, que sou alguém de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios."

Assim, me retiro deste sistema religioso antes que o adoecimento espiritual tome conta de mim. Antes que minha alma se torne irreversivelmente contaminada. Antes que a minha integridade espiritual seja comprometida.

Hoje, me sinto como se tivesse tido um membro amputado. Sim, porque somos um corpo e membros uns dos outro. A amputação é uma atitude extrema, que visa arrancar uma infecção antes que ela tome conta de todo o organismo. Por mais que seja doloroso, é preferível entrar na vida com a falta de um membro, do que tendo todos eles ser condenado ao juízo.

Mas também me sinto leve e pronta pra levar adiante meu projeto de vida: servir a Deus, livre de qualquer amarra, livre de qualquer jugo religioso, servir a Deus, sempre.

O único jugo que aceito sobre minha vida é o de Jesus, que é suave e leve. Quanto aos jugos religiosos, quero lançar todos fora da minha vida, e viver a vida abundante que Cristo nos prometeu.

Nele.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A falácia do "não toqueis nos meus ungidos"


“O SENHOR me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do SENHOR, estendendo eu a minha mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR.” (1 Sm.24:6 ARC)

Era um período negro na história de Israel. Saul, apesar de ter sido ungido por Samuel e ter recebido sobre sua vida unção do Espírito Santo para reinar sobre povo de Deus, logo se tornou um completo fracasso. Enlouquecido, perturbado, cheio de invejas e ciúmes, dedicou longos anos de sua vida a perseguir e tentar matar Davi, o homem que Jeová escolhera para assumir o governo de Israel.

Perseguido, Davi se limitava a tentar preservar sua vida, e mesmo tendo por duas vezes a chance de matar Saul e assim se livrar de seu grande problema, decidiu preservar a vida de seu algoz, considerando que não seria lícito tocá-lo, afinal, com todas as suas loucuras, Saul continuava sendo o ungido de Deus.

Séculos depois, o versículo de 1 Samuel 24:6 tem sido usado como pretexto pra qualquer líder que não aceita ver seu erros e falhas confrontados. Silas Malafaia vaticinou em um dos seus muitos (sofríveis) sermões: “seu pastor está errado? Ele é responsabilidade de quem o estabeleceu”.

Toda queixa, toda crítica, toda verdade que fira o ego de um homem que usa o título de pastor (ou bispo, apóstolo, ancião, ou qualquer outro nome que o defina como líder de uma igreja evangélica) é imediatamente rotulada como “se levantar contra o ungido de Deus”, e dá ao dito líder o direito de lançar sobre a vida de quem quer que seja toda sorte de maldições.

Mas a mesma bíblia nos conta de Samuel, diante de Saul, dizendo claramente: “você rejeitou a ordem do Eterno, ele rejeitou seu reinado. O Eterno rasgou de você o reino e o entregou ao seu próximo, um homem mais qualificado que você.” (1 Sm 15:23,28). Ele lançou a verdade na face do "ungido de Deus", e ainda vaticinou o fim nada glorioso de Saul. Aliás, quando menino, o mesmo Samuel disse verdades desconcertantes ao sacerdote Eli, que era um obreiro reprovável em sua conduta, em cuja vida não havia sinal algum de temor a Deus.

Pouco tempo depois Davi assumiu o reinado de Israel, tomando assim lugar de “ungido de Deus”. Porém, ungidos não são infalíveis, e Davi cometeu uma atrocidade sem tamanho, ao praticar um assassinato para tentar esconder um adultério. Mais uma vez entra em cena um profeta, desta vez Natã, com a missão de confrontar o rei, expor-lhe a gravidade de seu ato, e anunciar o juízo divino.

Ok. Alguém pode alegar: “esses homens eram profetas, enviados diretamente por Deus, anunciando aquilo que Deus lhes ordenava.” Porém, Paulo, sem ter nenhuma revelação divina a respeito, contando apenas com a verdade que conhecia e seu discernimento, confrontou e corrigiu (o pastor) Pedro, (Gl. 2:11) aquele pra quem Cristo havia pedido “apascenta minhas ovelhas”. A duplicidade de Pedro foi severamente repreendida por Paulo, e ficou registrada na bíblia pra que nós sempre nos lembremos: ungidos não estão incólumes, não são perfeitos, e não estão acima do bem e do mal.

Na verdade, a bíblia orienta que o obreiro deve ser aprovado e manusear bem a palavra de Deus. Além do mais, obreiro verdadeiro não deve ter motivos para se envergonhar. É assim que deve ser o procedimento do verdadeiro obreiro do Senhor: com honestidade, simplicidade e bom testemunho (1 Tm 3:1-13). Mas se houver motivos para repreensão, esta deve acontecer de preferência na presença de outras pessoas, para que sirva de exemplo aos demais (1 Tm 5:20), afinal, à quem muito é dado muito é cobrado. Na maioria das igrejas ditas evangélicas, obreiros não devem satisfação a ninguém, não prestam contas de nada e agem como bem entendem. É como se a bíblia lhes fornecesse uma espécie de "imunidade clerical".

Não é preciso ir longe para notarmos o quanto as verdades bíblicas estão sendo manipuladas para atender as vontades daqueles que a manipulam. A atitude de Davi ao decidir não tirar a vida de Saul tem sido usada como desculpa para colocar a pessoa do pastor, supostamente ungido por Deus, acima do bem e do mal. Ele se torna intocável, como se estivesse dentro de uma redoma divina, onde nenhuma crítica, nenhuma aversão, nenhuma opinião contrária pode chegar.

Para aqueles que ousam furar o cerco desta redoma o que sobram são palavras de maldições, tais como “Sua vida está assim, cheia de problemas, por que você se levantou contra o ungido de Deus”. Ou então: “Ao se levantar contra o ungido de Deus, você estará atraindo desgraça sobre sua vida.” Os erros dessas afirmações são crassos.

Pra começar, nenhuma maldição existe para aqueles que estão em Cristo Jesus, toda maldição foi cravada no calvário. Balaão, mesmo subornado pra profetizar maldições e desgraças contra o povo de Deus foi obrigado a admitir: Como poderia eu amaldiçoar a quem Deus não amaldiçoou? Como poderia condenar a quem o Eterno não condenou? Não há magia que possa prender Jacó, nem encantamentos que possam amarrar Israel” (Nm. 23:8,23). 

Portanto, “homens de Deus”, ao lançarem suas maldiçoes, não se esqueçam nunca: “Nenhum mal me sucederá, nem praga alguma chegará à minha tenda.” (Sl 91:10)

Em segundo lugar, certos homens acham que podem determinar o porquê das coisas acontecerem conforme acontecem. Paulo, o apostolo, foi humilde o suficiente para admitir que não há quem possa compreender os desígnios do Deus Todo Poderoso. “Vocês, por acaso, já viram algo que se compare a graça generosa de Deus ou à sua profunda sabedoria? É algo acima da nossa compreensão, que jamais entenderemos. Há alguém que possa explicar Deus? Alguém inteligente o bastante para lhe dizer o que fazer? Alguém que tenha feito a ele um grande favor ou a quem Deus tenha pedido conselho.” (Rm 11:33-35). Mas alguns líderes idiotados se consideram conhecedores dos misteriosos propósitos divinos, ou ainda, acham que Deus é seu capanga, sempre pronto a cumprir as ameaças proferidas pelos tais. Mal sabem eles o quanto são pobres, cegos e nus.

Além disso, ser ungido de Deus não é ser intocável. Ser ovelha submissa não é ser idiota. Ser obediente não significa cometer suicídio intelectual. Deus nos deu um cérebro altamente desenvolvido. Ele nos deu discernimento e olhar crítico, e nunca nos pediu que fossemos cegos para os erros que acontecem ao nosso redor. Denunciar a prática do pecado é fazer conhecida a luz de Cristo aos homens, e isso é dever de todo cristão. Ao nos comprar na cruz do calvário, Cristo tirou as vendas dos nossos olhos e nos trouxe para luz. A luz nos permite enxergar. Cegueira, por outro lado, é fruto das trevas.

“Antigamente, vocês tateavam na escuridão, mas hoje a situação é outra. Vocês estão em espaço aberto agora. A brilhante luz de Cristo ilumina o caminho. Por isso, nada de ficar tropeçando por aí. Fiquem firmes! Procurem o que é bom, certo, verdadeiro – isso, sim, condiz com a luz clara do dia. Descubram o que agrada a Cristo e comecem a praticar. Não desperdicem tempo em trabalho inútil, que para nada serve. É caminhar na escuridão. Ao contrário, denunciem a baixeza dessas coisas. É uma vergonha passar a vida fazendo tudo escondido, com medo que alguém descubra. Deixem que toda essa escuridão repugnante enfrente a luz e descubram como são atraentes à luz de Cristo.” (Ef. 5:8-13)

Minha oração hoje é muito simples. Peço a Deus que lance mais e mais raios de sua luz sobre meu caminho, para que eu não mais ande em trevas, mas que pela luz de sua palavra, eu possa enxergar com clareza os desvarios dos pseudos ungidos de Deus, e assim me desviar deles. Que Deus levante em minha geração muitas pessoas, que O sirvam sem a canga da religião, mas que com leveza e liberdade, apontem a luz sobre as loucuras dos homens sedentos por poder e dinheiro que ocupam os pedestais eclesiásticos, e assim tragam a liberdade a tantos oprimidos do sistema religioso.

Afinal, tudo o que se manifesta é luz!

Nele, em quem somos geração eleita, sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para anunciarmos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.

Obs. Salvo indicação, para as citações bíblicas deste texto, foi usada a tradução A Mensagem - Bíblia em Linguagem Contemporânea.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Corpo de Cristo, onde está?


Estou em busca de uma igreja.

Não, eu não estou falando de uma instituição religiosa, pois essas existem aos montes por ai, pra todos os gostos e pra todas as vontades. Não estou em busca de um novo endereço pra cultuar, nem de um líder que seja mais “legalzinho”. Tampouco procuro um balcão de serviços religiosos que seja mais eficaz no cumprimento de suas promessas.

O que eu procuro na verdade é uma comunidade de fé e adoração, que seja uma manifestação real do corpo de Cristo, um organismo vivo, cuja atuação tenha como propósito a construção do reino de Deus na terra.

Procuro um lugar onde eu possa servir a Deus com coração leve e livre, sem amarras, sem cangas, sem jugos. Onde a graça e a misericórdia sejam anunciadas e praticadas, e onde a incumbência de separar o joio do trigo seja exclusividade do Senhor da seara.

Busco um lugar onde o exercício dos dons e talentos, graciosamente concedidos pelo Pai das Luzes, seja pautado unicamente pela Palavra da Verdade.  Procuro um lugar onde se entenda que ninguém possui nada, mas que em tudo somos mordomos, cuidando das riquezas que nos foi confiada por Deus. Portanto apenas Ele tem o direito de nos dizer o que fazer o que recebemos Dele.

Procuro um lugar onde títulos nada signifiquem, mas cada um cumpra o ministério recebido de Deus, e o amor seja a medida de toda obra praticada.

Procuro um lugar onde seja vivida a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, que socorra órfãos, viúvas, pais aflitos, esposas abandonadas, famílias destruídas, corações em desespero, e toda sorte de pessoas marginalizadas, e supra suas necessidades.

Busco por um lugar onde reine a simplicidade, como substituta da ostentação; um lugar onde haja humildade pra aprender até com os pequeninos; onde exista capacidade de ouvir a quer que seja, sem que para isso o interlocutor precise lançar mão de métodos coativos. Um lugar onde o caráter seja mais importante do que o valor do dizimo, a integridade mais valorizada do que o sobrenome, e a honradez seja tida em mais alta estima do que a posição social e financeira de alguém.

Sim, eu procuro uma igreja. Uma comunidade onde o maior patrimônio não seja financeiro, mas seja humano. Onde as pessoas tenham mais valor do que as convenções, as tradições ou quaisquer outras coisas que gerem alguma coisa que não seja vida. Onde a lei e o sábado sejam relativizados em favor da geração e preservação desta vida.

Procuro um lugar onde a mecanicidade dê lugar a espontaneidade da adoração e onde o mover de Deus não seja medido pelos decibéis produzidos pelo culto. Onde o evangelho seja genuinamente cristocêntrico, e onde o amor não seja um conceito, mas uma prática a ser aprendida diariamente por todos.

Procuro uma igreja, com a qual eu aprenda adorar a Deus em espírito e em verdade. Na qual eu seja levada a cultivar um relacionamento verdadeiro com Ele, no qual eu O possa enxergar como um Pai amoroso e sempre disposto a acolher e abraçar seus filhos.

Procuro um lugar onde eu possa servir a Deus e a meus irmãos, se barganhas, sem tentativas de negociações. Onde “servir e adorar” não sejam moedas de troca, através da quais se pode “mover o braço de Deus”. Alias, quero desaprender as orações que deixem Deus sem alternativas, e obrigado a me abençoar, e quero orar apenas para dialogar com meu Pai.

Procuro um lugar onde eu aprenda na prática que não existe mérito algum que me faça mais merecedora dos favores de Deus. Um lugar onde se pregue que vitória não é conquista de quem lutou com anjo, mas dádiva da Graça inaudita. Onde o sangue de Cristo não seja pisoteado, e o próprio Cristo não seja novamente crucificado, pela ideia de que preciso “atrair a atenção de Deus”. Onde eu possa descansar na certeza de que Cristo já agradou a Deus em meu lugar, coisa que eu, por meus méritos, jamais conseguiria fazer.

Procuro um lugar onde a palavra de Deus tenha toda autoridade, e seja ela responsável pela configuração da vida de seus membros. Um lugar onde ninguém seja forçado a nada, mas onde a palavra tenha espaço pra fazer a obra que apraz Aquele que a proferiu. Afinal, nenhuma palavra proferida pela boca de Deus volta vazia, e se esta palavra não for suficiente pra causar uma mudança na vida de alguém, a pressão de um homem tampouco o será.

Procuro, e tenho de certeza de que esta igreja existe. Minha convicção vem da promessa de que sobre a Igreja de Cristo, edificada sobre o próprio Cristo, nenhuma porta do inferno poderá prevalecer. Essa igreja não tem nome e nem endereço, mas existe como cumprimento da promessa: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu ali estarei também.”

E não importa se este lugar é uma catedral, uma capela, uma choupana ou a sombra de uma arvore. Importa apenas que o lugar em que Cristo está se constitui uma igreja. Ali o corpo de Cristo pode crescer e o evangelho pode ser vivido e ensinado.

Nele, que se deu a si mesmo para nos fazer povo exclusivo seu,

sábado, 7 de maio de 2011

Cristão homofóbicos

Texto escrito quando da publicação da resolução 175, do Supremo Tribunal de Justiça, que "deixou" os gays se casarem,
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Crentes irados, pastores destilando revolta, manifestações publicas, evangélicos discutindo em redes sociais, e pra todo lado a (hipócrita) frase: amamos os homossexuais, mas odiamos suas práticas. Nesta semana, a aprovação de uma lei que garante direitos a população homossexual no Brasil causou alvoroços e muita crítica por parte de evangélicos de inúmeras denominações.

A bíblia – revelação de Deus por excelência, é clara ao dizer: homossexualismo é perversão, abominação, pecado. Entretanto, creio que o povo evangélico tem se enganado muito a respeito de como encarar toda essa situação.

Longe de querer fazer apologia a qualquer prática condenada pelas escrituras, preciso expor algumas opiniões sobre a lei que concede a casais gays os mesmos direitos de casais héteros, reconhecendo inclusive a união homoafetiva como sendo uma entidade familiar.

Em primeiro lugar, o grande mandamento do evangelho tem a ver com amor. Agir com desrespeito, preconceito, segregação, é tão pecaminoso quanto se relacionar com pessoas do mesmo sexo. Embora os crentes não admitam, o povo evangélico é preconceituoso sim, e destila toda sorte de maldições contra gays, prostitutas, adúlteros, ou qualquer outra pessoa que não se enquadre em seus padrões. Aquela máxima, de amar os pecadores, mas odiar o pecado, deveria ser substituída por algo como: “amamos os pecadores, dependendo do seu pecado”, ou então, “amamos os pecadores que consigam abandonar seus pecados”.

É importante ressaltar que nos círculos evangélicos os pecados relacionados a conduta sexual são os que causam mais escândalos e mais incomodam, por serem erroneamente considerados os mais sujos, os mais degradantes e os mais ofensivos a santidade divina. Esquecemos-nos que no rol das obras da carne figuram outros pecados cometidos aos montes, com os quais quase ninguém se incomoda, como por exemplo: inveja, glutonaria, ira e inimizade. É tudo obra da carne, segundo Paulo escreveu aos gálatas. Aos coríntios, o mesmo Paulo disse que os efeminados não herdarão o reino dos céus, assim como os avarentos, os bêbados e os maldizentes também não herdarão. Mas somos campeões em coar mosquitos e engolir dromedários.

Em segundo lugar,  leis não determinam atitudes. Ninguém se tornou gay, ou deixou de sê-lo em decorrência da legislação. E não adianta querer torcer o nariz: a legalização do casamento homossexual e o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo no Brasil é uma realidade. Mas ninguém vai rever sua orientação sexual em decorrência disso. Tem uma porção de coisas que são legais, mas nem por isso eu faço. E se fizer, fiz por vontade própria, não por que uma nova lei me induziu a isso. Ao invés de tentar mudar leis, os pastores deveriam se preocupar em pregar o evangelho genuíno, que transforma corações, muda atitudes, e nos apresenta Cristo e sua imensa graça, sem a qual todos estaríamos perdidos.

O mundo caminha rumo a degradação total, e contra isso não adianta lutar, é o curso natural das coisas. Tudo já estava previsto na bíblia, e está se cumprindo. Ao invés de tentar conter o fluxo, nossa luta deve ser por se manter fiel a Deus, através de um relacionamento de intimidade e liberdade com Ele.

Hipocritamente, as igrejas evangélicas fingem que a questão da homossexualidade não as atinge, mas a verdade é que há tantos homossexuais dentro das igrejas quanto fora delas. Alguns vivem uma vida dupla, escondidos atrás de casamentos e ministérios. Outros vivem em crise, lutando dia e noite contra suas tendências e desejos. Há ainda os que dão testemunho da cura, e se tornam verdadeiros troféus para sua comunidade e seu pastor, mas na verdade são escravos da culpa e de seus desejos. Enquanto isso, as igrejas acham que fazer campanhas contra leis é a melhor forma de agir. Estão de olho na horta do vizinho, e não cuidam do seu próprio quintal. Mas, como já disse um profeta do nosso tempo, um povo que não sabe lidar sequer com masturbação de adolescentes, tão pouco saberá lidar com questões mais delicadas, como é a homossexualidade.

Concordar com práticas claramente contrárias a palavra de Deus seria negar minha fé. Mas qualquer forma de homofobia, também seria negação de Cristo em minha vida e de sua obra na cruz. Sim, por que no calvário, ele levou sobre si todas as transgressões, de todas as pessoas, e tornou todos agradáveis a Deus, bastando tão somente que Nele creiamos. Assim, não há pecado ou perversão que não possa ser apagado pelo poder da graça de Deus.

Nele, em cuja graça eu descanso, e com quem tento aprender a AMAR.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O guia definitivo da ignomínia religiosa (ou AS 12 REGRAS DE OURO DA CALHORDICE)

ATENÇÃO: ESTE TEXTO CONTÊM IRONIAS

É praticamente um consenso: pastor não é profissão, é ministério. Da mesma forma, missionário, evangelista, bispo, apóstolo, ou qualquer outro título (até mesmo os autoproclamados) também não são considerados como sendo profissões, mas como ministérios dados diretamente por Deus.

Bem, isso é teoria. Na prática, tem muito pseudoministro do evangelho, que na verdade, é só mais um profissional da fé, que se relaciona com o suposto “ministério” como se este fosse um trabalho, e com a igreja, como se esta fosse uma empresa. Além disso, embora não exista uma regra abrangente sobre como cumprir um ministério (ao contrário do que se diz a bíblia não é um manual de fé e de prática pra muitas igrejas) existe um código de (falta de) ética, não escrito, não falado, mas rigorosamente cumprido por muitos profissionais do evangelho 

Abaixo seguem algumas regras que deverão ser seguidas religiosamente por quem deseja ser uma "pastor calhorda":

  1. Nenhum membro da congregação deve ser considerado perdoado, antes de passar pela intercessão de seu pastor. Assim, evita-se aquele sentimento de liberdade e leveza, e se mantem a autoridade sobre o povo. O medo deve ser cultivado entre a membresia de forma tácita, pois assim todos permanecerão fiéis a Deus, ao evangelho, e principalmente ao seu pastor.
  2. Todas as confissões feitas ao pastor devem ser expostas a congregação, para que sirva de exemplo para aqueles que pretendem incorrer no mesmo pecado. Além disso, o pastor não tem nenhuma obrigação de manter em sigilo os problemas pessoais a ele confidenciados.
  3. Para que a submissão bíblica seja praticada, os membros da congregação devem ser conduzidos a cometerem suicídio intelectual. Quem pensa corre o risco de pensar diferente, e opiniões divergentes caracterizam insubmissão. Ainda para se manter a submissão, todas as decisões serão centralizadas na pessoa do pastor. Igreja não é uma democracia. O pastor jamais deverá dar ouvido às opiniões alheias, mesmo que concorde com elas, pois se assim o fizer perderá a credibilidade junto as suas ovelhas. A submissão é justificativa para qualquer atitude injustificável.
  4. Por serem representantes de Deus na terra, os pastores devem viver da forma mais ostentativa possível, pois assim mostram ao povo o quanto são abençoados. Pela mesma razão sua família e amigos devem ter uma vida rica e confortável, mesmo que para isso precisem ser sustentados pelo ministério. Assim, na distribuição de cargos, principalmente os assalariados, deve ter prioridade a família do pastor, seus agregados, e seus amigos próximos.
  5. Os dons e talentos da congregação são de propriedade de seus pastores, devendo os mesmos decidirem sobre a maneira como seus portadores irão utiliza-los. Assim, fica expressamente proibido a qualquer membro fazer o uso de seus talentos sem que antes passe pelo crivo de seu pastor. Ele é quem decidirá se aquele talento poderá ser usado, e quais serão as restrições a tal uso.
  6. O uso de dons espirituais, especialmente o de profecia, só poderá ser feito se autorizado pela liderança da igreja. Esta, por sua vez, só deverá liberar seu uso se for para abençoar a congregação, especialmente seus líderes, e jamais permitir exortações e correções, afinal o único que tem o direito de corrigir a igreja é seu pastor. O papel do Espírito Santo nesse sentido é secundário. O agir e mover do Espírito Santo numa reunião deve ser condicionado pela autorização do líder. O vendo deve soprar da maneira que o líder desejar.
  7. A palavra de Deus deverá ser usada de forma tendenciosa. As passagens que legitimam as práticas do pastor e de sua família devem ter destaque especial nos cultos e reuniões. Em contrapartida, as passagens bíblicas que acusarem suas práticas devem ser evitadas, suprimidas e, quando houver extrema necessidade, explicadas à luz de algum contexto equivocado.
  8. As prioridades de uma igreja são: arrecadação financeira; manutenção de sua estrutura eclesiástica; expansão patrimonial; tradições; regras; costumes. Pessoas jamais devem ser priorizadas em detrimento das prioridades essenciais acima enunciadas. Assim, uma tradição deve ser mantida a qualquer custo. Inovações são sempre prejudiciais e o bem estar de uma pessoa não é motivo suficiente para efetuar qualquer mudança.
  9. Devido a sua agenda muitas vezes atropelada, o pastor deve se preocupar com coisas essenciais, e deixar de lado coisas secundárias. como por exemplo: os problemas financeiros, conjugais, familiares, existenciais da membresia. Cada um deve cuidar de seus próprios problemas.
  10. As honras e deferências com as quais determinadas pessoas serão tratadas devem ser diretamente proporcional a sua contribuição financeira.
  11. Em todo o tempo o líder deve viabilizar situações que o coloquem no centro das atenções. A simplicidade das pombas é um conceito ultrapassado e precisa ser revisto. Reuniões nas quais a pessoa do líder fique evidenciada e receba honrarias diversas devem ser comuns e sempre muito incentivadas. Isso relembra a congregação quem de fato tem o poder e a autoridade.
  12. Todo líder deve considerar sua igreja como sendo a expressão máxima do corpo de Cristo, e assim desmerecer totalmente as demais igrejas, devendo sempre se referir as mesmas como sendo sectárias e hereges. Isso evita que os crentes mudem de denominação, o que causaria diminuição das receitas financeira. Caso decida sair da denominação, o crente deve ser considerado por todos, principalmente pelo pastor, como sendo rebelde, litigiosos, ingrato e insubmisso. Mudança de denominação deve acontecer sempre debaixo de maldição, especialmente quando se tratar de alguém cuja contribuição seja expressiva, Neste caso o pastor deve empreender todo esforço para persuadi-lo a revogar sua decisão.
Pra finalizar, uma observação muito importante: todas as regras determinadas serão invalidadas nos casos que envolverem interesses de familiares e amigos do líder.
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Perdoem-me pela ironia. Sei que existem ainda muitos pastores sérios, e realmente comprometidos com o reino de Deus. Ao escrever essas palavras, não me refiro especificamente a nenhum a pastor ou denominação. É tão somente uma expressão do que infelizmente tem acontecido nos meios religiosos. É também um grito de revolta e indignação, contra aqueles que não ouviram ainda a advertência do Messias: “ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, raça de víboras, sepulcros caiados”.


Nele, o pastor do salmo 23, o sumo sacerdote das nossas almas.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Onde estão os adoradores?

Muitas pessoas buscam Deus, mas há algumas classes de pessoas a quem Deus procura. Um grupo de pessoas muitos especiais que Deus tem procurado é o dos VERDADEIROS ADORADORES, aqueles que adoram ao Pai em espírito e em verdade, aqueles que O adoram com espírito verdadeiro
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Bem, inicialmente parece simples. Chega ser um contra-senso que Deus tenha que “procurar” essas pessoas, afinal, todos os dias milhões de adoradores lotam os templos no mundo todo, certo? Errado. Milhões de “usuários de serviços religiosos” lotam os templos ao redor do mundo, mas verdadeiros adoradores são escasso, e estão cada vez mais raros, até por que a maioria dos cultos, cujo objetivo anunciado é “adorar a Deus”, sequer propicia uma ambiente para tal.

Nas igrejas ultra pentecostais, o que se chama de adoração é na verdade, frenesi religioso, misturado com uma boa dose de histeria coletiva. Sim, eu sei que isso soa a heresia, principalmente vindo de alguém que nasceu e cresceu em uma denominação pentecostal, super conservadora. A verdade é que não me sinto a vontade em cultos onde se busca a todo custo aquela “santa anarquia” e se esquece do alvo principal da congregação: adorar a Deus em espírito e em verdade. Nos nossos dias proliferam de forma extremamente assustadora pregadores e crentes que cultuam dessa forma, que é quase patológica. O que se espera sempre é o êxtase religioso, para então se fazer a  afirmação: o culto hoje foi uma bênção!

O que se aprendeu? O que se adorou? Que tipo de edificação se obteve? Quais os desdobramentos que aquele culto trará para vida diária? Bem, essas já são outras questões consideradas de “menor” importância. Importante mesmo é entrar em transe, supostamente por obra do Espírito Santo.

Da mesma forma, não me sinto a vontade também em cultos da fôrma neo-pentecostal, que mais se parecem com programas de auditório, onde os ministros de louvor e pregadores são facilmente confundidos com animadores de platéia, e levam o público ao delírio, com frases do tipo "tira o pé do chão" e "dê um brado de vitória". Novamente, o foco é o frenesi, e não a adoração. Depois de um culto desses, depois de pular, rodar, fazer trenzinho e correr "para adorar", fica a mesma pergunta: culto pra quem? Adoração a quem? 

Se eu - uma simples mortal, pecadora e falha, me sinto enojada diante de tais manifestações, principalmente por usarem o nome de Deus para sua legitimação, penso quão grandes náuseas sente o Pai, ao ver aquilo que deveria ser um culto, se transformar em qualquer coisa, menos num culto.
Nunca foi tão atual as advertências do primeiro capitulo do livro do profeta Isaías.

"Para que me oferecem tantos sacrifícios?", pergunta o Senhor. "Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos. Não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes! Quando vocês vêm à minha presença, quem lhes pediu que pusessem os pés em meus átrios? Parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim. Luas novas, sábados e reuniões! Não consigo suportar suas assembléias cheias de iniqüidade. Suas festas da lua nova e suas festas fixas, eu as odeio. Tornaram-se um fardo para mim; não as suporto mais! Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! (Is. 1:11-15)
Ao invés de reuniões afetadas, a palavra do Senhor ordena: “Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva.” (Is. 1:16-17

Enquanto um culto pra ser considerado verdadeiro por muitos crentes, tem que ser barulhento, frenético, histérico, chegando as raias do suicídio intelectual,  a palavra de Deus nos diz algo bem diferente: “se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.” (Rm 12:1)

Nele, que é digno do melhor do nosso culto e da nossa adoração.