"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ipês em flor (ou: Primavera, a estação mais linda)


Já estamos no final do inverno, e não sei por que, tenho a sensação de que ainda estamos no outono. As folhas mortas estão cobrindo as ruas e calçadas e estão me fazendo ficar cada vez mais ansiosa pelo renascimento da primavera. Todo ano tenho a nítida sensação de que a vida que ficou toda encaramujada pelo inverno, explode num orgasmo de luz e cores durante a primavera. O verão é o pós-coito, a vibe, o corpo encharcado de prazer (sexo é sempre a melhor metáfora para tudo).

Moro na mesma cidade desde sempre, mas por alguma inexplicável razão, só por esses dias notei a beleza dos ipês floridos. As folhas caem todas, e as árvores são só flores rosas. As calçadas ao redor ficam cobertas por este tapete perfumado. Se a árvore estiver plantada no meio de um gramado, a beleza é ainda maior, pois o verde da grama e o rosa das flores formam um mosaico único e lindo.

Penso que, vez por outra, deveríamos parar no meio do corre-corre da vida para contemplar os pequenos milagres que acontecem o tempo todo a nossa volta: uma flor que nasce nos galhos secos de uma árvore qualquer, um pássaro que sempre tem razões de sobra para cantar, uma criança que, desinteressadamente, nos presenteia com um desenho, uma poesia, uma música, uma obra de arte, o humano e o divino se misturando.

Sim, eu sei que isso é um clichê extremamente desgastado nos nossos dias. “Desacelere, pare um pouco, tire tempo pra você, aproveite as pequenas coisas do dia-a-dia” é o que dizem os gurus da qualidade de vida. Sinceramente, se as pessoas conseguissem fazer isso de forma auto-imposta, ninguém sofreria do stress crônico que assola nossos dias.

Acredito que esse estado de contemplação não pode ser determinado por fatores externos. Ninguém pode se obrigar a ouvir uma sinfonia no som do vento! Talvez o milagre precise começar lá dentro, no interior de cada um. Talvez uma convergência de fatores seja necessária, talvez precise de uma boa dose de psicofármacos, algumas horas de terapia, uma boa razão para viver, e alguns sonhos a serem perseguidos. Nenhuma transformação se eterniza se não acontecer de dentro pra fora. Nenhuma mudança instantânea é perene.

Daí então, uma dia qualquer, sem aviso prévio, abrimos a porta e enxergamos um ipê vestido das cores mais lindas. Ele sempre esteve ali, mas nossos olhos estavam anuviados demais para enxergá-lo.

Há quem diga que, para uma vida valer a pena, três coisas são necessárias: ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Em relação ao filho, minha vida já foi re-significada pelo fruto do meu ventre. O livro, substituo por um blog. Quanto à árvore, com certeza será um ipê.

Nele, que nos presenteia com algo novo a cada manhã.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A lira dos 189 dias


Perdi tempo demais tentando ser quem eu não era. Ao me descobrir mascarada, senti o chão tremer sob meus pés. Quem sou eu afinal?

Em meio a tornados e furacões, encontrei um lugar de descanso, e pensei que finalmente minhas privações seriam supridas permanentemente. Descanso, refrigério, alívio. O doce som de uma lira, acalentando uma história que poderia ter sido linda. E foi, de fato, linda.

Nos embalos de poesias, em despretensiosos encontros com almas humanas, ao som de trilhas que ficariam tatuadas na alma e na mente, a vida se tornou mais florida. Tudo ganhou novo significado, todas as cores se tornaram mais vivas. O sol, o vento, a chuva, a beleza de tudo o que é vida explodiu diante de mim, numa intensa ejaculação de sons, cores e sabores.

E o mais incrível de tudo era poder ser unicamente quem nasci pra ser. Sem máscaras e sem disfarces, apenas eu, com todas as ambiguidades e idiossincrasias próprias a qualquer ser humano. Segredos reverentemente partilhados, lágrimas cuidadosamente enxugadas, silêncios que tudo diziam, risos desobrigados, elementos de uma intensa e breve caminhada lado a lado

É fantástica a possibilidade de, nos encontros com almas humanas, que se dispõe a serem tão somente almas humanas, encontrarmos um manancial de graça. Este ingrediente (ingrediente?) essencial do evangelho não sobrevive de elementos meramente abstratos, mas se manifesta na vida através da concretude e materialidade de atos humanos (salve Caio Fábio).

Na humanidade Deus manifesta sua graça. Nos abraços, nos afagos, nos pequenos gestos que demonstram amor, o Criador nos envolve com o manto de sua bondade. Nas palavras de consolo ao coração ferido, no colo oferecido gratuitamente, nas mãos que ajudam, nos braços que aquecem, Deus trabalha em e para o ser humano.

Oração nenhuma substitui um abraço. Na solidão, nenhum decreto substitui o sussurro que diz: “eu estou aqui, meu irmão”, já dizia o homem de Deus.

A vida porém é feita de elementos efêmeros, que se transformam ao sabor do acaso, ou pela força da circunstâncias. Água pode se transformar em vinho, suor pode se tornar em sangue, e o concreto pode se esvair no nada.

De repente, sem nenhum aviso prévio, o som da lira cessou. O silêncio agonizante, trilha quase funesta, envolveu tudo com seu manto espesso. Os espasmos desse orgasmo de vida deixaram de existir, não com a suavidade de quem se sabe amado, mas com a violência brusca de quem sente medo de quem se acreditou amado.

Num instante, todas as privações, cridas como superadas, irromperam novamente. As cores se desbotaram, os pássaros silenciaram, o sol e o vento se tornaram brandos, quase indiferentes. Projetos foram arquivados, detalhes foram escondidos para não serem lembrados. Trilhas, poesias, lugares, tudo recebeu a letra escarlate da renúncia e da evasão.

Mas, que proveito há em se tirar do alcance dos olhos algo que está latente na alma? Como afastar da vista aquilo que não se consegue apagar da mente? Talvez seja melhor deixar o tempo cuidar de tudo, não por que esta seja a opção mais plausível, mas porque talvez esta seja a única opção.

Às vezes, a caixa das lembranças se impõe diante de mim. Quase sempre me faz chorar um choro que nunca imaginei chorar.

A lira silenciou, e no prelo não havia outra música. Ainda assim, agradeço a vida, que um dia me permitiu ouvir o seu doce som.

Nele, que coloca em nosso caminho as pessoas certas nos momentos certo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Solilóquio

Um turbilhão se forma dentro de mim todos os dias. 

Melhor, um turbilhão se avoluma dentro de mim, dia após dia. Minha mente, ansiosa, tenta em vão expressar em palavras. Em vão...

Tudo o que sobra são frases soltas, palavras desconexas.

Alguns conflitos devem ser encarados na solitude, foi o que alguém me disse certa vez. Verdadeiro? Não sei, mas muitas vezes é a única opção disponível.

A vida vai aos pouco nos ensinando, mas existem algumas lições das quais eu gostaria de me isentar e conhecer apenas “de ouvir falar”. Mediocridade? Não, apenas instinto de auto preservação.

A solidão dói. O abandono dói. E dores não podem ser rotuladas, nem limitadas, nem definidas.

Triste é a condição daquele que viu desabar seu castelo de cartas. Não percebeu, mas estava construindo um complexo edifício – de areia. Veio o  mar, e agora, não sobrou mais nada.

Triste é ter que apagar do arquivo da memória trilhas sonoras que se tornaram lembranças dolorosas demais para serem revividas.

Triste é saber que andar pelo chão da verdade custa caro, e muitas vezes, a caminhada é solitária.

Triste é ver que aquilo que se acreditou ser tão real, era na verdade uma fantasia totalmente surreal.

Triste é não saber em quem confiar, ou ainda, descobrir tarde demais em quem não se deve confiar.

Triste é encontrar dores exatamente onde se espera encontrar alívio.

Triste é não ter com quem dividir as cargas, ter que encarar sozinho os próprios algozes, gritar por socorro sem ser ouvido.

A intensidade de um sentimento não é garantia de continuidade. O desejo de empatia nem sempre é correspondido.

Por isso, triste é se deparar com pessoas que acham que te conhecem melhor do que você mesmo.

Pessoas que identificam as razões dos seus conflitos, definem como você deveria reagir a eles, e ainda fazem pesadas críticas por que você não agiu conforme o script.

Pessoas que rotulam sua dor, e dizem se você tem ou não motivos para chorar. 

Pessoas assim, geralmente consideram que as deduções que fazem a seu respeito são mais verdadeiras do que aquilo que você diz acerca de si mesmo. Aliás, essas pessoas não costumam sequer prestar atenção ao que você diz acerca de si mesmo. As conclusões previamente definidas são encaradas como verdades indissolúveis. E o mais triste é lembrar que essas pessoas são (ou foram) chamadas de "amigos".

Triste é ver se dissolver no nada aquilo que se considerou indissolúvel. Triste é perceber que jaz no passado todas as razões para a existência dos sentimentos mais nobres, mais lindos, mais saradores.

Triste é perceber tardiamente que aquele embate ainda não acabou, que aquele fantasma ainda não foi totalmente exorcizado, que antigas assombrações do passado continuam bem vivas, esperando um momento para aterrorizar.

Nele, a quem eu clamo e em quem eu espero.

sábado, 3 de março de 2012

Alma Nua, e a incessante busca por nós mesmo

Nus. Foi assim que chegamos a este mundo. Totalmente descobertos de qualquer ideal, de qualquer ideologia, de qualquer segredo. Completamente desprotegidos e totalmente vulneráveis ao mundo e as suas mazelas.

Porém, o tempo, esse implacável carrasco, logo tratou de nos mostrar a necessidade que tínhamos de nos cobrir, nos esconder, nos proteger. E como o cacto, que se reveste de espinhos para se manter vivo na aridez, também desenvolvemos nossos próprios meios de sobrevivência.

E assim, dedicamos boa parte da nossa vida a construir a nossa volta muros de proteção, e a fabricar para nós mesmos pesadas armaduras.

Por isso, a impressão que passamos nunca é o que de fato somos. O que se vê de nós, é apenas a armadura que usamos, um escudo quase impenetrável que nos protege de sofrer decepções, de sermos atingidos com dardos de inveja, de sermos abalados por palavras envenenadas.

Os muros, a armadura, o escudo, os espinhos. Nossa proteção, nossa fortaleza, nosso mundo particular, no qual ninguém entra. Nesse espaço, pensamos ser livres e ilusoriamente acreditamos que diante de nós, somos nós mesmos.  

Mas armaduras são também amarras. E o tempo mais uma vez entra em cena, e um dia não reconhecemos nosso imagem no espelho. Esse ser que nos olha nos olhos, quem é? Perdemos-nos de nós mesmos! De tanto nos proteger do mundo, passamos a acreditar que a armadura, o escudo e os espinhos fazem parte de quem somos. Acreditamos que os muros são parte de nós.

Mas pode ser que chegue o dia em que alguém vai ousar penetrar o fosso que circunda nosso castelo, e invadir nosso mundo. Alguém vai entrar sorrateiramente e nos descobrir como de fato somos.

“Como você entrou aqui?” A pergunta vai sair quase inexprimível, num grito sufocado. Talvez nem tenhamos percebido, mas deixamos alguma porta aberta. Poderá parecer descuido, mas na verdade, terá sido um ato do nosso inconsciente desesperado, que ansiava ser liberto das grades auto-impostas.

Vamos sentir medo, vamos sentir vergonha, vamos querer fugir. Mas uma força maior, um “eu” desejando ser reencontrado, vai tomar as rédeas da situação.

Primeiro deporemos as armas, uma a uma. E entregaremos o escudo. Sentiremos-nos suficientemente seguros para não precisarmos empunhar mais nossos meios de defesa. Depois arrancaremos os espinhos, com os quais atacamos o mundo toda a nossa vida. E de repente, veremos a nós mesmos como de fato somos.

Temos uma vaga lembrança do ser que um dia fomos, então vem a dúvida: somos de fato, isso? Desarmados, frágeis, vulneráveis? Toda nossa força, toda nossa dureza, toda fortaleza construída ao nosso redor, era de fato apenas uma imagem holográfica?

Não é fácil nos vermos assim, frágeis, sensíveis e cheios de carências. Mas se existe alguém que nos permite sermos assim, então nos desarmamos e nos expomos completamente. Permitimos sermos conhecido como de fato somos, e amados apenas por causa do que somos.

Reencontramos-nos com nós mesmo quando encontramos alguém que permite que sejamos nós mesmos. Mesmo que a vulnerabilidade signifique risco de se machucar, vale a pena, se o resultado final for nos acharmos.

Então, a fortaleza que construímos pode ser implodida. E nosso ser renasce, voltando a ser livre.

Nele, que coloca a nossa volta pessoas dispostas a dinamitar nossas fortalezas.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Aprendi com Shakespeare

Depois de um tempo, comecei a aprender algumas coisas.

Eu aprendi que amar não significa apoiar-se, que companhia nem sempre significa segurança, que beijos não são contratos e que presentes não são promessas. E assim descobri que um sentimento nem sempre traz a estabilidade necessária a uma relação. Muitas vezes, quando se esperam atitudes que legitimem os sentimentos, elas simplesmente inexistem.

Eu aprendi que, não importa o quanto eu me importe, algumas pessoas simplesmente não se importam. Pessoas diferentes supõem atitudes diferentes e prioridades diferentes. Por isso, é uma grande perda de tempo querer que alguém tenha as mesmas ações que eu teria numa situação similar. Se alguém não se importa, isso não é uma falha de caráter, mas apenas mais uma evidência de que o ser humano não foi feito em série.

Eu aprendi que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai me ferir de vez em quando e eu preciso perdoá-la por isso. Entretanto, o perdão para ser gerado, requer tempo e paciência. E dar a luz ao perdão exige muito mais esforço do que eu gostaria.

Eu aprendi que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la. E que existem valores que uma vez perdidos, não voltam jamais.

Aprendi que, em um instante, posso fazer coisas das quais me arrependerei pelo resto da vida. Por isso, preciso dosar cuidadosamente cada palavra, cada atitude e cada reação as circunstâncias. Aprendi também que devo controlar os meus atos, ou eles me controlarão.

Aprendi que o que importa não é o que eu tenho na vida, mas quem eu tenho na vida. Entretanto, ter alguém não significa posse, mas entrega gratuita de um coração que decidiu abrir-se ao outro. Por isso, muitas vezes, a pertença não é mútua nem ocorre na mesma intensidade.

Aprendi que os amigos são também minha família, porém desprovida de laços sanguíneos. Por isso, sobrevive na gratuidade e espontaneidade dos encontros e dos abraços. Aprendi também que não preciso mudar de amigos, pois o tempo e as contingências da vida são suficientes para fazer com os amigos e os laços que foram construídos, mudem e se adaptem a cada momento da minha história.

Aprendi que melhor amigo e eu podemos fazer qualquer coisa, ou nada, e mesmo assim termos bons momentos juntos. Aprendi que para que um momento seja especial, só preciso que seja vivido ao lado de pessoas especiais.

Aprendi que ser flexível não significa ser fraco, ou não ter personalidade. Significa apenas analisar uma situação sob diferentes ângulos e ter coragem de abandonar um ponto de vista e assumir outro, que seja mais adequado. Não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem, pelo menos, dois lados. Então, é preciso discernimento e critério para compreender uma circunstância. Mas eu também aprendi que, em algumas circunstâncias, as lucubrações não compensam.

Aprendi que algumas vezes a pessoa de quem eu espero um chute quando caio é uma das poucas que me ajudam a levantar, da mesma maneira que algumas pessoas de quem eu espero socorro podem ser exatamente quem me manterá no chão.

Aprendi que nunca devo dizer a pessoa alguma que sonhos são bobagens. Poucas coisas seriam tão humilhantes e seria uma tragédia descomunal se essa afirmação fosse crida. Os sonhos são a força motriz da vida. Um sonho, bem vivo dentro da alma, é o que nos faz ter ânimo para levantar da cama a cada manhã.

Aprendi que só porque alguém não me ama do jeito que eu gostaria de ser amada não significa que esse alguém não me ame com tudo o que pode. Existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Entretanto, a certeza de ser amado é uma necessidade constante, que pode se tornar gritante, e pequenas provas de amor podem curar corações partidos e aliviar almas sufocadas.

Aprendi que não importa em quantos pedaços meu coração tenha sido partido, o mundo não pára para que eu o conserte. Portanto, devo continuar minha caminhada pela estrada da existência, mesmo com a vida aos pedaços. Às vezes, a cura de um coração despedaçado, está em algum ponto além, em algum lugar de descanso dessa longa estrada. Aprendi que nessa estrada, eu posso ser lugar de descanso, ou posso ser razão de mais dores. Portanto, a cada dia devo decidir de que lado eu estarei.

Aprendi a plantar o meu jardim e decorar a minha alma, ao invés de ficar esperando alguém que me traga flores. Esperar por outros quase sempre é motivo de mais dores e mais decepções. Por isso, aprendi que por mais que os outros tenham importância na construção da minha história, eu sou a protagonista do enredo da minha vida.

Aprendi que quando penso que não consigo ir mais além, ainda posso avançar alguns passos. Existem ainda muitos alvos a serem alcançados, muitos projetos a serem realizados, muitos sonhos a serem vividos e muitas, muitas coisas a serem aprendidas.

Aprendi que mais importante do que saber, é viver o que se sabe. Por isso, na construção da minha história, ainda preciso aprender a agir de acordo com que já aprendi.

Aprendi que a vida vale a pena, que viver é a maior dádiva que alguém poderia receber. Aprendi que, de fato, a vida tem valor e que eu tenho valor diante da vida!


Nele, que nunca nos poupou de sofrimentos, antes, nos faz transcender a dor para nos conformar a sua imagem.

Livremente inspirado no texto “O Menestrel”, atribuído a William Shakespeare.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Quem vai para o céu??

Houve um tempo em que eu, contaminada que vivia com a ambiência religiosa, achava que podia dizer quem seria salvo e quem não teria direito a salvação, restando a estes últimos apenas a condenação e o castigo eternos. Em minha ignorância, acreditava que, baseando-se em fatores exteriores, como por exemplo a religião professada, era possível determinar o “nível de espiritualidade” em que alguém vivia, quem eram os merecedores da vida eterna, e quem eram os indignos de tal dádiva.

Hoje porém, pela graça que me foi outorgada em Cristo, já me desvencilhei de alguns desses pré-conceitos formados pela consciência religiosa. Claro que ainda sobram aqui e ali alguns resquícios dessa religiosidade esdrúxula e boçal. Entretanto, vou tentando aparar as arestas que ficaram, e luto para que minha espiritualidade seja tão somente a vivência do evangelho simples e puro, sem as intervenções dos dogmas farisaicos que por muito tempo ditaram minha maneira de ver o mundo.

Já não mais considero a profissão de fé feita de acordo com os trâmites denominacionais condição sine qua non  para que o nome de alguém seja escrito no livro da vida. Aliás, acho que esta sagrada lista de nomes não tem nenhuma relação com qualquer rol de membros. Também não acredito que nesta vida, qualquer pessoa possa fazer afirmações a respeito do que se passa na vida vindoura.

Já passou o tempo que o fato de alguém fumar, não frequentar uma igreja evangélica, fazer coisas que os "crentes" consideram errado, ter pecados não confessados à pretensa “autoridade espiritual divinamente constituída”, ou nunca ter levantado a mão numa reunião evangélica, eram por mim considerados como sendo impedimentos à salvação.

Hoje, tenho aprendido que salvação é fruto tão somente da imensa na graça de Deus, na qual confio inteiramente, seja para buscar bênçãos, seja para ter a certeza da vida eterna. Sim, tenho plena convicção de que tudo o que era necessário para que minha salvação fosse garantida já foi feito na cruz do calvário.

Acredito na gratuidade das bênçãos de Deus na minha vida. Não há sacrifício a ser feito nem penitência a ser paga. Um só sacrifício já foi oferecido, e por este sacrifício eu tenho perdão, justificação, redenção, nova vida, garantia de aceitação por Deus, salvação eterna, e acesso pleno até o coração Daquele a quem eu posso chamar de Pai.

A mesma palavra que garante que sobre mim está a Graça de Deus, também afirma que melhor do que oferecer qualquer sacrifício a Ele é obedecer a sua vontade (Sm.15:22). Além disso, já está dito que o Pai não se agrada de sacrifícios, mas de um espírito quebrantado e contrito em sua presença (Sl 51:16-17).

Ter espírito quebrantado e contrito significa ser, assim como o barros, facilmente moldável pelas mãos do supremo Oleiro. E não há ninguém sobre esta terra que possa mensurar o quão disponível cada um está aos propósitos deste Oleiro.

Apenas Deus conhece cada recôndito da alma humana, com suas dores, angústias, mágoas e feridas abertas. Ele sabe exatamente quantos traumas enfrentamos, e quão profundas foram as marcas deixadas. Apenas Deus sabe o que de fato somos, e por que razão o somos. Apenas Ele conhece o que gerou em nós a pessoa que nos tornamos. 

Deus, e somente Deus, sabe o quanto cada um de nós lutamos para viver de acordo com sua vontade e cumprir a sua palavra. Ele sabe o quão frustrante nos é perceber que antigos erros continuam nos oprimindo, e como os fantasmas do passado nos atormentam e nos deixam desesperados. O Pai conhece os espinhos que estão cravados em nossa carne, sabe com que sinceridade buscamos agradá-Lo, e também sabe do nosso sofrimento ao nos percebemos incapazes de fazer Sua vontade. Sim, Ele conhece o que se passa na mente e no coração, antes, durante e depois de uma queda.

Entretanto, apesar de quem somos, a mesa do Senhor está posta, e todos somos convidados. “Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo” (Is 55:1). O preço necessário para a participação nesta festa já foi pago, quando Aquele que não conheceu pecado se fez pecado por nós (2Co 5:21).

Há alguém com fome ou com sede? Pode vir, se sentar a mesa e desfrutar de tudo o que se tem direito, não por mérito, mas pelas virtudes da cruz de Cristo. Para tanto, não interessa a condição econômica, o tipo de pecado em que se esteve envolvido, a maneira como se tem vivido, ou qualquer outra coisa. Em Cristo, todas as demais coisas são pequenas demais quando comparadas ao amor e a graça que Ele coloca ao nosso dispôr. O evangelho me garante que Deus, em Cristo, estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os meus pecados (2Co 2:19), mas recebendo a todos, indistintamente, em seu regaço.

Como na parábola das bodas, há uma festa preparada, mas nem todos os convidados são dignos (Mt 22:2-10). "Ser digno" porém, não é para aqueles que possuem méritos exteriores, mas tão somente àqueles que “querem” participar desta festa. A ordem foi dada, e todos, bons, maus, pobres, aleijados e mancos são chamados ao banquete (Lc 14:23). Nas bodas do Cordeiro, o salão de festas estará cheio, e os religiosos, se lá pudessem entrar, ficariam escandalizados pelo tipo de gente que estará participando da festa. No reino de Deus há lugar para todos, inclusive para prostitutas e ladrões, que lá entrarão antes de muitos "crentes piedosos"(Mt 21:31).

Claro, eu sei que existem aqueles que dirão que essas verdades não deveriam ser ditas a qualquer um, pois podem ser usadas por alguém como pretexto para viver dissolutamente. Acredito que a Graça de Deus não gera libertinagem nunca, mas sempre gera contrição e desejo ardente de agradar Aquele que primeiro no amou, e gratuitamente nos fez filhos de Deus. Se alguém proceder de forma oportunista, estará cometendo o pior dos enganos: o auto-engano, pois próprio Espírito Santo, no qual vivemos, nos movemos e existimos (At 17:28) testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 14;16). E quem vive no Espírito não busca satisfazer os desejos da carne (Gl 5:16), e não está sob domínio de nada que não seja a vontade de Deus (Rm 6:14)

Nele, que nos reuniu sob a sombra de sua Cruz.