"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Quem vai para o céu??

Houve um tempo em que eu, contaminada que vivia com a ambiência religiosa, achava que podia dizer quem seria salvo e quem não teria direito a salvação, restando a estes últimos apenas a condenação e o castigo eternos. Em minha ignorância, acreditava que, baseando-se em fatores exteriores, como por exemplo a religião professada, era possível determinar o “nível de espiritualidade” em que alguém vivia, quem eram os merecedores da vida eterna, e quem eram os indignos de tal dádiva.

Hoje porém, pela graça que me foi outorgada em Cristo, já me desvencilhei de alguns desses pré-conceitos formados pela consciência religiosa. Claro que ainda sobram aqui e ali alguns resquícios dessa religiosidade esdrúxula e boçal. Entretanto, vou tentando aparar as arestas que ficaram, e luto para que minha espiritualidade seja tão somente a vivência do evangelho simples e puro, sem as intervenções dos dogmas farisaicos que por muito tempo ditaram minha maneira de ver o mundo.

Já não mais considero a profissão de fé feita de acordo com os trâmites denominacionais condição sine qua non  para que o nome de alguém seja escrito no livro da vida. Aliás, acho que esta sagrada lista de nomes não tem nenhuma relação com qualquer rol de membros. Também não acredito que nesta vida, qualquer pessoa possa fazer afirmações a respeito do que se passa na vida vindoura.

Já passou o tempo que o fato de alguém fumar, não frequentar uma igreja evangélica, fazer coisas que os "crentes" consideram errado, ter pecados não confessados à pretensa “autoridade espiritual divinamente constituída”, ou nunca ter levantado a mão numa reunião evangélica, eram por mim considerados como sendo impedimentos à salvação.

Hoje, tenho aprendido que salvação é fruto tão somente da imensa na graça de Deus, na qual confio inteiramente, seja para buscar bênçãos, seja para ter a certeza da vida eterna. Sim, tenho plena convicção de que tudo o que era necessário para que minha salvação fosse garantida já foi feito na cruz do calvário.

Acredito na gratuidade das bênçãos de Deus na minha vida. Não há sacrifício a ser feito nem penitência a ser paga. Um só sacrifício já foi oferecido, e por este sacrifício eu tenho perdão, justificação, redenção, nova vida, garantia de aceitação por Deus, salvação eterna, e acesso pleno até o coração Daquele a quem eu posso chamar de Pai.

A mesma palavra que garante que sobre mim está a Graça de Deus, também afirma que melhor do que oferecer qualquer sacrifício a Ele é obedecer a sua vontade (Sm.15:22). Além disso, já está dito que o Pai não se agrada de sacrifícios, mas de um espírito quebrantado e contrito em sua presença (Sl 51:16-17).

Ter espírito quebrantado e contrito significa ser, assim como o barros, facilmente moldável pelas mãos do supremo Oleiro. E não há ninguém sobre esta terra que possa mensurar o quão disponível cada um está aos propósitos deste Oleiro.

Apenas Deus conhece cada recôndito da alma humana, com suas dores, angústias, mágoas e feridas abertas. Ele sabe exatamente quantos traumas enfrentamos, e quão profundas foram as marcas deixadas. Apenas Deus sabe o que de fato somos, e por que razão o somos. Apenas Ele conhece o que gerou em nós a pessoa que nos tornamos. 

Deus, e somente Deus, sabe o quanto cada um de nós lutamos para viver de acordo com sua vontade e cumprir a sua palavra. Ele sabe o quão frustrante nos é perceber que antigos erros continuam nos oprimindo, e como os fantasmas do passado nos atormentam e nos deixam desesperados. O Pai conhece os espinhos que estão cravados em nossa carne, sabe com que sinceridade buscamos agradá-Lo, e também sabe do nosso sofrimento ao nos percebemos incapazes de fazer Sua vontade. Sim, Ele conhece o que se passa na mente e no coração, antes, durante e depois de uma queda.

Entretanto, apesar de quem somos, a mesa do Senhor está posta, e todos somos convidados. “Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo” (Is 55:1). O preço necessário para a participação nesta festa já foi pago, quando Aquele que não conheceu pecado se fez pecado por nós (2Co 5:21).

Há alguém com fome ou com sede? Pode vir, se sentar a mesa e desfrutar de tudo o que se tem direito, não por mérito, mas pelas virtudes da cruz de Cristo. Para tanto, não interessa a condição econômica, o tipo de pecado em que se esteve envolvido, a maneira como se tem vivido, ou qualquer outra coisa. Em Cristo, todas as demais coisas são pequenas demais quando comparadas ao amor e a graça que Ele coloca ao nosso dispôr. O evangelho me garante que Deus, em Cristo, estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os meus pecados (2Co 2:19), mas recebendo a todos, indistintamente, em seu regaço.

Como na parábola das bodas, há uma festa preparada, mas nem todos os convidados são dignos (Mt 22:2-10). "Ser digno" porém, não é para aqueles que possuem méritos exteriores, mas tão somente àqueles que “querem” participar desta festa. A ordem foi dada, e todos, bons, maus, pobres, aleijados e mancos são chamados ao banquete (Lc 14:23). Nas bodas do Cordeiro, o salão de festas estará cheio, e os religiosos, se lá pudessem entrar, ficariam escandalizados pelo tipo de gente que estará participando da festa. No reino de Deus há lugar para todos, inclusive para prostitutas e ladrões, que lá entrarão antes de muitos "crentes piedosos"(Mt 21:31).

Claro, eu sei que existem aqueles que dirão que essas verdades não deveriam ser ditas a qualquer um, pois podem ser usadas por alguém como pretexto para viver dissolutamente. Acredito que a Graça de Deus não gera libertinagem nunca, mas sempre gera contrição e desejo ardente de agradar Aquele que primeiro no amou, e gratuitamente nos fez filhos de Deus. Se alguém proceder de forma oportunista, estará cometendo o pior dos enganos: o auto-engano, pois próprio Espírito Santo, no qual vivemos, nos movemos e existimos (At 17:28) testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 14;16). E quem vive no Espírito não busca satisfazer os desejos da carne (Gl 5:16), e não está sob domínio de nada que não seja a vontade de Deus (Rm 6:14)

Nele, que nos reuniu sob a sombra de sua Cruz.