"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

sábado, 30 de maio de 2015

UMA BACIA, UMA TOALHA E UMA CURA

Em minha caminhada pelo chão da vida me deparei com muitos percalços. Consegui me desvencilhar da maioria deles, mas houve um dia em que me vi com os pés afundados num atoleiro. Tentei dar um jeito naquela sujeira toda, mas acabei percebendo que o melhor seria voltar pra casa. Lá eu poderia me lavar.

Enquanto caminhava, sentia meu coração pesaroso, como se estivesse sendo esmagado por mãos gigantescas. Cansaço, enfado, tudo parecia uma piada de péssimo gosto. “Droga de vida”, pensei quando ao longe avistei minha casa.

Faltavam alguns metros para chegar na casa quando a porta da frente se abriu, e meu Pai surgiu na soleira, com aquele sorriso amoroso que me era tão familiar. Ele veio em minha direção e me recebeu com um abraço. Ele me fez entrar e me ofereceu uma poltrona onde eu poderia descansar um pouco.

Estava me sentindo envergonhada, sem conseguir olha-Lo nos olhos. Ele ali, me acolhendo com tanto carinho e eu com pés completamente enlameados. Desviei o olhar para o chão e tentei iniciar uma conversa despretensiosa. Talvez falar sobre qualquer frivolidade tirasse toda aquela sujeira do centro das atenções. Não tirou.

Enquanto eu falava, Ele se afastou calmamente, pegou uma bacia e uma toalha e se inclinou diante de mim. Tocou meus pés imundos e começou a lavá-los.

- Por favor, não faz isso. Não é necessário - repliquei angustiada.

Ele apenas sorriu, e amorosamente me falou:

- Claro que é, seus pés estão imundos. Mas eu vou resolver isso.

- Não preciso que faça isso, eu mesmo me limparei – minha voz se tornara ríspida, quase autoritária.

- Você não consegue, não sozinha – Ele não mudava o tom doce e suave de sua voz.

Por fim, eu acabei desabando. Todas as minhas pretensões caíram por terra. Ele me conhecia inteiramente. Diante dele eu era um completo flagrante.

- Pai, estou tão envergonhada. Eu não queria que isso tivesse acontecido, eu não queria te decepcionar dessa maneira...

- Não se preocupe com isso filha. Você não me decepcionou. Eu nunca me esqueço da sua estrutura, sei que você é pó. Além disso, não há nada que possa alterar a comunhão que temos. Nada poderá te levar pra longe do meu amor.

- Pai, acho que preciso de um banho completo.

Ele não respondeu. Pacientemente ele terminou de lavar meus pés, os enxugou com a toalha, e sentou-se ao meu lado.

- Filha, você já está limpa. Minha palavra habita em você, e isso é o que te purifica. O chão da vida te sujou os pés, mas eu posso te limpar. Todos os sonhos que tenho pra você ainda estão vivos, e nada poderá frustrar os planos que tenho para o teu futuro. Você não deixou de ser quem é, e eu não mudei minha atitude a teu respeito. Não há nada na terra, nem nos céus, nem debaixo da terra, que possa me afastar de você.

- Pai, eu errei tanto!

- Eu sei filha. Mas eu não te condeno. Perdoados estão os teus pecados. Agora, retome a tua caminhada. Não há santo que, andando pelo chão da vida, não suje os pés. Você só precisa lembrar-se de sempre me procurar, eu posso te lavar.

Senti como se irrompesse uma chuva de graça sobre mim, me vi envolta por uma nuvem de amor. As mãos que apertavam meu coração se soltaram e eu suspirei com alivio e leveza. Levantei-me com um novo ânimo, uma nova perspectiva. Sentia-me renovada e pronta para caminhar muitas milhas. O Pai me abraçou e novamente sorriu pra mim.

Quanto já tinha virado as os costas para partir, ouvi sua voz me chamando. Quando me virei, ele me estendeu a bacia e toalha que ainda segurava.

- Filha, leve isso com você. Você vai encontrar muita gente assim, precisando da mesma cura que você recebeu. O que fiz por você, faça a todos quantos encontrar.


Nele, que não nos trata conforme nossos pecados!

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