Já estamos no final do inverno,
e não sei por que, tenho a sensação de que ainda estamos no outono. As folhas mortas
estão cobrindo as ruas e calçadas e estão me fazendo ficar cada vez mais
ansiosa pelo renascimento da primavera. Todo ano tenho a nítida sensação de que
a vida que ficou toda encaramujada pelo inverno, explode num orgasmo de luz e
cores durante a primavera. O verão é o pós-coito, a vibe, o corpo encharcado de prazer (sexo é
sempre a melhor metáfora para tudo).
Moro na mesma cidade desde
sempre, mas por alguma inexplicável razão, só por esses dias notei a beleza dos
ipês floridos. As folhas caem todas, e as árvores são só flores rosas. As
calçadas ao redor ficam cobertas por este tapete perfumado. Se a árvore estiver
plantada no meio de um gramado, a beleza é ainda maior, pois o verde da grama e
o rosa das flores formam um mosaico único e lindo.
Penso que, vez por outra, deveríamos
parar no meio do corre-corre da vida para contemplar os pequenos milagres que acontecem
o tempo todo a nossa volta: uma flor que nasce nos galhos secos de uma árvore
qualquer, um pássaro que sempre tem razões de sobra para cantar, uma criança que,
desinteressadamente, nos presenteia com um desenho, uma poesia, uma música, uma
obra de arte, o humano e o divino se misturando.
Sim, eu sei que isso é um clichê
extremamente desgastado nos nossos dias. “Desacelere, pare um pouco, tire tempo
pra você, aproveite as pequenas coisas do dia-a-dia” é o que dizem os gurus da
qualidade de vida. Sinceramente, se as pessoas conseguissem fazer isso de forma
auto-imposta, ninguém sofreria do stress crônico que assola nossos dias.
Acredito que esse estado de
contemplação não pode ser determinado por fatores externos. Ninguém pode se obrigar
a ouvir uma sinfonia no som do vento! Talvez o milagre precise começar lá dentro,
no interior de cada um. Talvez uma convergência de fatores seja necessária,
talvez precise de uma boa dose de psicofármacos, algumas horas de terapia, uma boa razão para viver, e
alguns sonhos a serem perseguidos. Nenhuma transformação se eterniza se não acontecer de dentro pra fora. Nenhuma mudança instantânea é perene.
Daí então, uma dia qualquer, sem aviso prévio, abrimos
a porta e enxergamos um ipê vestido das cores mais lindas. Ele sempre esteve
ali, mas nossos olhos estavam anuviados demais para enxergá-lo.
Há quem diga que, para uma vida
valer a pena, três coisas são necessárias: ter um filho, escrever um livro e
plantar uma árvore. Em relação ao filho, minha vida já foi re-significada pelo
fruto do meu ventre. O livro, substituo por um blog. Quanto à árvore, com
certeza será um ipê.
Nele, que nos presenteia com algo novo a cada manhã.
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