"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A falácia do "não toqueis nos meus ungidos"


“O SENHOR me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do SENHOR, estendendo eu a minha mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR.” (1 Sm.24:6 ARC)

Era um período negro na história de Israel. Saul, apesar de ter sido ungido por Samuel e ter recebido sobre sua vida unção do Espírito Santo para reinar sobre povo de Deus, logo se tornou um completo fracasso. Enlouquecido, perturbado, cheio de invejas e ciúmes, dedicou longos anos de sua vida a perseguir e tentar matar Davi, o homem que Jeová escolhera para assumir o governo de Israel.

Perseguido, Davi se limitava a tentar preservar sua vida, e mesmo tendo por duas vezes a chance de matar Saul e assim se livrar de seu grande problema, decidiu preservar a vida de seu algoz, considerando que não seria lícito tocá-lo, afinal, com todas as suas loucuras, Saul continuava sendo o ungido de Deus.

Séculos depois, o versículo de 1 Samuel 24:6 tem sido usado como pretexto pra qualquer líder que não aceita ver seu erros e falhas confrontados. Silas Malafaia vaticinou em um dos seus muitos (sofríveis) sermões: “seu pastor está errado? Ele é responsabilidade de quem o estabeleceu”.

Toda queixa, toda crítica, toda verdade que fira o ego de um homem que usa o título de pastor (ou bispo, apóstolo, ancião, ou qualquer outro nome que o defina como líder de uma igreja evangélica) é imediatamente rotulada como “se levantar contra o ungido de Deus”, e dá ao dito líder o direito de lançar sobre a vida de quem quer que seja toda sorte de maldições.

Mas a mesma bíblia nos conta de Samuel, diante de Saul, dizendo claramente: “você rejeitou a ordem do Eterno, ele rejeitou seu reinado. O Eterno rasgou de você o reino e o entregou ao seu próximo, um homem mais qualificado que você.” (1 Sm 15:23,28). Ele lançou a verdade na face do "ungido de Deus", e ainda vaticinou o fim nada glorioso de Saul. Aliás, quando menino, o mesmo Samuel disse verdades desconcertantes ao sacerdote Eli, que era um obreiro reprovável em sua conduta, em cuja vida não havia sinal algum de temor a Deus.

Pouco tempo depois Davi assumiu o reinado de Israel, tomando assim lugar de “ungido de Deus”. Porém, ungidos não são infalíveis, e Davi cometeu uma atrocidade sem tamanho, ao praticar um assassinato para tentar esconder um adultério. Mais uma vez entra em cena um profeta, desta vez Natã, com a missão de confrontar o rei, expor-lhe a gravidade de seu ato, e anunciar o juízo divino.

Ok. Alguém pode alegar: “esses homens eram profetas, enviados diretamente por Deus, anunciando aquilo que Deus lhes ordenava.” Porém, Paulo, sem ter nenhuma revelação divina a respeito, contando apenas com a verdade que conhecia e seu discernimento, confrontou e corrigiu (o pastor) Pedro, (Gl. 2:11) aquele pra quem Cristo havia pedido “apascenta minhas ovelhas”. A duplicidade de Pedro foi severamente repreendida por Paulo, e ficou registrada na bíblia pra que nós sempre nos lembremos: ungidos não estão incólumes, não são perfeitos, e não estão acima do bem e do mal.

Na verdade, a bíblia orienta que o obreiro deve ser aprovado e manusear bem a palavra de Deus. Além do mais, obreiro verdadeiro não deve ter motivos para se envergonhar. É assim que deve ser o procedimento do verdadeiro obreiro do Senhor: com honestidade, simplicidade e bom testemunho (1 Tm 3:1-13). Mas se houver motivos para repreensão, esta deve acontecer de preferência na presença de outras pessoas, para que sirva de exemplo aos demais (1 Tm 5:20), afinal, à quem muito é dado muito é cobrado. Na maioria das igrejas ditas evangélicas, obreiros não devem satisfação a ninguém, não prestam contas de nada e agem como bem entendem. É como se a bíblia lhes fornecesse uma espécie de "imunidade clerical".

Não é preciso ir longe para notarmos o quanto as verdades bíblicas estão sendo manipuladas para atender as vontades daqueles que a manipulam. A atitude de Davi ao decidir não tirar a vida de Saul tem sido usada como desculpa para colocar a pessoa do pastor, supostamente ungido por Deus, acima do bem e do mal. Ele se torna intocável, como se estivesse dentro de uma redoma divina, onde nenhuma crítica, nenhuma aversão, nenhuma opinião contrária pode chegar.

Para aqueles que ousam furar o cerco desta redoma o que sobram são palavras de maldições, tais como “Sua vida está assim, cheia de problemas, por que você se levantou contra o ungido de Deus”. Ou então: “Ao se levantar contra o ungido de Deus, você estará atraindo desgraça sobre sua vida.” Os erros dessas afirmações são crassos.

Pra começar, nenhuma maldição existe para aqueles que estão em Cristo Jesus, toda maldição foi cravada no calvário. Balaão, mesmo subornado pra profetizar maldições e desgraças contra o povo de Deus foi obrigado a admitir: Como poderia eu amaldiçoar a quem Deus não amaldiçoou? Como poderia condenar a quem o Eterno não condenou? Não há magia que possa prender Jacó, nem encantamentos que possam amarrar Israel” (Nm. 23:8,23). 

Portanto, “homens de Deus”, ao lançarem suas maldiçoes, não se esqueçam nunca: “Nenhum mal me sucederá, nem praga alguma chegará à minha tenda.” (Sl 91:10)

Em segundo lugar, certos homens acham que podem determinar o porquê das coisas acontecerem conforme acontecem. Paulo, o apostolo, foi humilde o suficiente para admitir que não há quem possa compreender os desígnios do Deus Todo Poderoso. “Vocês, por acaso, já viram algo que se compare a graça generosa de Deus ou à sua profunda sabedoria? É algo acima da nossa compreensão, que jamais entenderemos. Há alguém que possa explicar Deus? Alguém inteligente o bastante para lhe dizer o que fazer? Alguém que tenha feito a ele um grande favor ou a quem Deus tenha pedido conselho.” (Rm 11:33-35). Mas alguns líderes idiotados se consideram conhecedores dos misteriosos propósitos divinos, ou ainda, acham que Deus é seu capanga, sempre pronto a cumprir as ameaças proferidas pelos tais. Mal sabem eles o quanto são pobres, cegos e nus.

Além disso, ser ungido de Deus não é ser intocável. Ser ovelha submissa não é ser idiota. Ser obediente não significa cometer suicídio intelectual. Deus nos deu um cérebro altamente desenvolvido. Ele nos deu discernimento e olhar crítico, e nunca nos pediu que fossemos cegos para os erros que acontecem ao nosso redor. Denunciar a prática do pecado é fazer conhecida a luz de Cristo aos homens, e isso é dever de todo cristão. Ao nos comprar na cruz do calvário, Cristo tirou as vendas dos nossos olhos e nos trouxe para luz. A luz nos permite enxergar. Cegueira, por outro lado, é fruto das trevas.

“Antigamente, vocês tateavam na escuridão, mas hoje a situação é outra. Vocês estão em espaço aberto agora. A brilhante luz de Cristo ilumina o caminho. Por isso, nada de ficar tropeçando por aí. Fiquem firmes! Procurem o que é bom, certo, verdadeiro – isso, sim, condiz com a luz clara do dia. Descubram o que agrada a Cristo e comecem a praticar. Não desperdicem tempo em trabalho inútil, que para nada serve. É caminhar na escuridão. Ao contrário, denunciem a baixeza dessas coisas. É uma vergonha passar a vida fazendo tudo escondido, com medo que alguém descubra. Deixem que toda essa escuridão repugnante enfrente a luz e descubram como são atraentes à luz de Cristo.” (Ef. 5:8-13)

Minha oração hoje é muito simples. Peço a Deus que lance mais e mais raios de sua luz sobre meu caminho, para que eu não mais ande em trevas, mas que pela luz de sua palavra, eu possa enxergar com clareza os desvarios dos pseudos ungidos de Deus, e assim me desviar deles. Que Deus levante em minha geração muitas pessoas, que O sirvam sem a canga da religião, mas que com leveza e liberdade, apontem a luz sobre as loucuras dos homens sedentos por poder e dinheiro que ocupam os pedestais eclesiásticos, e assim tragam a liberdade a tantos oprimidos do sistema religioso.

Afinal, tudo o que se manifesta é luz!

Nele, em quem somos geração eleita, sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para anunciarmos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.

Obs. Salvo indicação, para as citações bíblicas deste texto, foi usada a tradução A Mensagem - Bíblia em Linguagem Contemporânea.

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