"Transformem-se pela renovação de suas mentes" (Paulo, o apóstolo)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A história de um rompimento

Era uma vez uma pessoa extremamente religiosa.

Um dia essa pessoa percebeu que sua religiosidade não tinha nenhum valor diante da infinita misericórdia e da inesgotável graça de Deus. Então decidiu romper com o sistema religioso no qual estava inserido e iniciar uma nova caminhada com Deus.

Ao partir nesta nova jornada, esta pessoa escreveu uma carta de desabafo, que provavelmente seja o grito sufocado de muitas pessoas que são escravas do sistema religioso. Por isso, decidi transcrever aqui essa carta anônima. Espero que muitos notem que não são os únicos oprimidos pela instituição que arvorou para si o direito de ser chamada de igreja.

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Um lugar qualquer, 18 de julho de 2011.

Agora é oficial: não faço mais parte daquele sistema religioso. Hoje tornei pública esta decisão, que dentro de mim vinha sendo tomada há muito tempo.

Sei que esta atitude poderá causar incômodo em algumas pessoas. Não que minha presença neste lugar seja imprescindível, sei que não é. O que acontece de fato é que minha história passa pela igreja na qual nasci, fui batizada nas águas, me casei, consagrei minha filha a Deus. Foi nesta igreja que vi despertar o meu ministério, na área ensino e da pregação. Enfim, esta era minha igreja.

Nunca fui uma pessoa que, nos meios eclesiásticos, devesse ser taxada como problemática. Nunca tive problemas com os tais usos e costumes nem tropecei na dita submissão às autoridades divinamente constituídas. Não estou saindo após alguma briga ou discussão com meus líderes. Tampouco estou me insurgindo contra quem que seja. Na verdade, o que aconteceu hoje nada mais é do que o resultado de um lento processo, de uma série de acontecimentos, e principalmente, de uma profunda transformação que tem acontecido no meu interior.

O processo que desembocou na minha decisão de sair desta instituição religiosa começou há uns três ou quatro anos, quando alguns princípios do evangelho me foram apresentadas de uma forma até então nova pra mim. Muitos paradigmas começaram a ser quebrados em minha vida, e “verdades” até então absolutas foram questionadas. Uma verdadeira desconstrução começava abalar as paredes do meu interior.

Aos poucos, comecei a perceber quão doentio havia se tornado o ambiente no qual eu vivia e (achava que) servia a Deus. Os gravíssimos erros cometidos por aqueles a quem eu considerava verdadeiros ministros de Deus, começaram a ficar muito nítidos pra mim. Não que eu os desconhecesse, mas aos poucos eles foram se evidenciando e me incomodando cada vez mais, até que ficou insuportável.

Era insuportável saber que histórias muito pessoais segredadas no gabinete pastoral, eram espalhadas aos quatro ventos. Questões muito íntimas, problemas muito pessoais, confissões no mínimo constrangedoras, confidenciadas a pessoa do pastor, eram anunciadas a todos. Nada era mantido em sigilo.

Era insuportável assistir a exposição vergonhosa que se fez de muitos membros da igreja. A exposição de pecados cometidos, como se fossem as chagas em um leproso, me causava ânsias. Ver famílias inteiras sendo envergonhadas em nome de um sistema opressor era insuportável.

Era insuportável saber que um pecado que não tenha sido confessado no gabinete pastoral e exposto a toda comunidade nunca é considerado perdoado. Enquanto criticam os intercessores entre Deus e os homens criados por outras religiões, homens arrogantes agem como se intercessores fossem.

Era insuportável ver questiúnculas ganharem proporções agigantadas, e atropelaram pessoas. Era demasiadamente incômodo ver que o ser humano não tinha nenhuma importância diante das convenções e das tradições. Assistir gente sendo ferida por causa de brincos, bermudas e jogos de pelada entre amigos, me era insuportável. Perceber que enquanto se faziam reuniões para discussão destes assuntos, almas se perdiam sem nenhuma assistência ou ajuda, se tornou um peso insuportável.

Por falar em assistência, era insuportável ver ajuda (material ou espiritual) sendo condicionada ao bom comportamento das pessoas. A relevância social da igreja sempre foi ínfima, afinal como eles mesmos dizem “igreja não é instituição de caridade”.

Era insuportável ver o cerceamento da liberdade, da criatividade e da individualidade dos membros da comunidade. Insuportável ver ministérios sendo podados por pura intransigência dos donos da igreja. Insuportável saber que ali, a única forma aceitável de servir a Deus é aquela que está moldada pela cartilha da denominação. É insuportável saber que existem pessoas que se consideram donos dos dons e talentos dos membros da igreja, e se acham no direito de dizer como devem ser exercidos.

Era insuportável ver que mostrar poder era um hábito mais arraigado do que tratar as pessoas com o mínimo de respeito e educação. As palavras “essa igreja ainda tem pastor presidente”, proferidas contra uma pessoa muito amada, ecoam nos meus ouvidos e me causam asco. É insuportável ver pessoas sendo pisadas e humilhadas, apenas por que alguém teve seu ego ferido ou precisa mostrar o poder que tem nas mãos.

Era insuportável a ostentação, a mania de grandeza, os projetos megalomaníacos. Insuportável o desprezo que sempre se fez de outras igrejas e de outros pastores. Insuportável a liturgia engessada, a teologia rala e a mesmice instaurada quase como regulamento estatutário.

Era insuportável assistir aos ridículos espetáculos que as muitas vacas de presépio promoviam. Aquela quase idolatria a personalidade do líder, sempre cercado de fantoches, me enojava. Saber com que tipo de rédea toda liberdade de expressão era cerceada estava cada vez mais insuportável.

Mesmo convivendo com tantas pessoas que buscavam servir a Deus com sinceridade, era insuportável ver a hipocrisia estampada no rosto de tantos. E mais insuportável ainda era notar que eu também estava me tornando uma pessoa hipócrita e doente.

Então, soltei meu grito desesperado: "Ai de mim, que sou alguém de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios."

Assim, me retiro deste sistema religioso antes que o adoecimento espiritual tome conta de mim. Antes que minha alma se torne irreversivelmente contaminada. Antes que a minha integridade espiritual seja comprometida.

Hoje, me sinto como se tivesse tido um membro amputado. Sim, porque somos um corpo e membros uns dos outro. A amputação é uma atitude extrema, que visa arrancar uma infecção antes que ela tome conta de todo o organismo. Por mais que seja doloroso, é preferível entrar na vida com a falta de um membro, do que tendo todos eles ser condenado ao juízo.

Mas também me sinto leve e pronta pra levar adiante meu projeto de vida: servir a Deus, livre de qualquer amarra, livre de qualquer jugo religioso, servir a Deus, sempre.

O único jugo que aceito sobre minha vida é o de Jesus, que é suave e leve. Quanto aos jugos religiosos, quero lançar todos fora da minha vida, e viver a vida abundante que Cristo nos prometeu.

Nele.

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